domingo, 26 de agosto de 2012

"Senhora da Pedra"


Uns consideravam-na uma visionária… Outros uma louca!
Tudo dependia do ponto de vista e, por vezes, do dia em que a abordavam. Havia dias em que a loucura era a chave, outros em que o que dela emanava era puro génio.

Fosse como fosse, o seu olhar penetrante e perscrutador dava razão a ambas as facções.
O castanho dos seus olhos era tão profundo que tudo o que atravessava a densa íris tinha que ser intenso - daí que ninguém permanecia indiferente ao seu olhar.

Já havia sido comparada a Einstein por causa de todo o conhecimento que tinha, mas também pelo cabelo desgrenhado e expressão brincalhona que de vez em quando usava.
Havia sido comparada a Gaudi por utilizar algo comum de forma inovadora, como quando trabalhava coisas simples e as transformava em obras de arte, sendo ao mesmo tempo genial e infantil.
Até com Madre Teresa de Calcutá a haviam comparado dada a sua ânsia de partilhar e ajudar.
Contudo, todas as comparações lhe ficavam aquém… ela era verdadeiramente única!

Tudo começara quando ela quisera comprar um terreno numa aldeia isolada nas montanhas… 
Uma mulher só, de aparência bizarra e modos peculiares fora a presa perfeita para os anciãos: fizeram com que comprasse um terreno sem terra, quase completamente repleto de pedras.
Havia lá algures um pinheiro bravo isolado, mas raquítico de tão açoitado pelo vento e da falta de local por onde espalhar as suas raízes. Tudo o que se viam eram pedras e mais pedras, grandes, pequenas, altas, vastas, todo o chão parecia ser de pedra coberta por líquenes e musgo e mesmo o tojo, as giestas, os cardos e restante vegetação comum em terrenos "de monte", rareava.
Ela não desarmou, não exigiu o dinheiro de volta, não fez nada para mostrar que estava contrariada. E os anciãos apenas a acharam mais maluca por isso!

Ganhava a vida vendendo o que fazia com as suas mãos a partir dos restos do lixo que recolhia na aldeia com o acordo do presidente da Junta.
- Quer o nosso lixo? Fique com ele todo!
E, mais uma vez, era vista como louca...
 
Por vezes vinham turistas conhecer a sua propriedade, o que muito agradava à Dona Irene, proprietária da única pensão lá do sítio, bem como ao Sr. Amílcar da tasca – um negociozito extra era sempre bem vindo!

Chamara amigos e conhecidos, voluntários a rodos, para ajudar a juntar pedras em redor do pinheiro, começando um muro que, mais tarde, viria a ser coberto por hera…
Na pedra maior, amigos experientes abriram brechas com água e paciência e, no início do Verão seguinte à sua chegada, já conseguia dormir no seu interior e não na cabana que haviam construído com fardos de palha junto ao pinheiro.
Quem a visitava trazia um frasco de terra e sementes e, quando se mudara para a pedra, despejara-os todos no socalco que haviam instalado junto à entrada e semeara cada semente com um beijo. Em meses teria uma horta com abóboras e batatas e muito mais!

Quando a esposa do sacristão adoeceu, ela deu-lhe um chá que a curou e, desde então, as mulheres da aldeia começaram a aprender muito com ela acerca de ervas.
Houve quem lhe chamasse bruxa, mas todos viam que ela só havia trazido coisas boas à aldeia, pelo que tudo isso passou.

Ela parecia imune à opinião dos outros, partilhando tudo o que sabia com quem queria aprender e, aos poucos, todos admitiram o quanto desejavam saber mais sobre tanta coisa...

Convencera os vizinhos a deixarem-na recolher mato e a pastorear a sua cabra nos seus terrenos - o que muito lhes convinha, visto diminuir o risco de incêndio e até adubar a terra. Juntava tudo numa caixa enorme feita de paletes de madeira e, em breve, tinha mais terra para novos socalcos. 
Para os construir, começou a recolher pedras dos terrenos vizinhos, e os anciãos, mais uma vez, a acharam maluca de todo:
- Já não lhe chegam as pedras que tem no seu terreno?
Mas ela não lhes ligava e, em breve, cresceram canteiros, socalcos e até um lago no seu pedaço de monte.

No espaço dum ano, já tinha uma casa de pedra, uma cabra bem gordinha e um cabritinho, os rudimentos duma horta, e espaço para um lago que aguardava apenas pelas águas do Inverno.

Ao fim do quinto ano, a transformação daquele terreno cheio de pedras num terreno cheio de arbustos e pequenas árvores parecia magia. Fruto de trabalho árduo e muito empenho e dedicação, ela tornara aquele deserto num oásis.
A aldeia havia crescido com pessoas que pretendiam partilhar com ela os seus conhecimentos e filosofia de vida.
Haviam novamente crianças a brincar no largo da igreja e a escola ia reabrir no início do próximo ano lectivo, pois já haviam alunos suficientes para uma turma.

Os anciãos continuavam a chamar-lhe louca, mas agora com um sentimento de gratidão, pois percebiam tudo o que haviam ganho com a permanência dela na região. No seu âmago, davam graças por ela não ter ido embora e nem sequer lhes levar a mal o terreno que lhe haviam vendido.
Aliás, já todos os habitantes haviam vendido os seus piores terrenos, pois havia muito quem os quisesse para encetar um trabalho como o dela.

Quando ela partiu, treze anos depois, todos na aldeia sentiram a sua falta, mas as sementes do seu trabalho persistiram: a aldeia crescera muito e continuava a crescer; a escola já ia até ao secundário; e até um centro de saúde tinham agora lá! 
E a quantidade de faias, carvalhos e nogueiras que surgiam agora nos montes, bem como terra fértil onde antes só houvera rocha seca, era algo porque todos lhe estavam gratos.
Sem esquecer a alegria que trouxera ao presidente da Junta na forma da sua neta Flora, que só nascera graças às suas mãos habilidosas e conhecimentos de doula.

- Era uma louca, que construiu muros com pedras e dava beijos às sementes, mas uma louca que nos ajudou tanto, tanto…
- Era uma génia, que soube criar terra onde ela não havia e vida onde nem a morte se quedava…
- Era uma bruxa, mas das boas! Uma fada que nos abençoou ao escolher a nossa terra!
  
Mais tarde a “Universidade Sénior” da aldeia era oficialmente inaugurada. 
Um projecto ao qual ela se dedicara e que fora nomeada em sua homenagem: “Universidade Sénior da Senhora da Pedra”.
  
Imagem retirada do FB
 
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema "De génio e de louco".

6 comentários:

  1. Magnifica história amiga! Numa pequna aldeia (país) como a nossa, que há tanto terreno para ser explorado, revolvido, ressuscitado de tanto abandono que existe, pena que ainda persistam tantas pedras no(s) caminho(s) e nas mentalidades! Beijinhos

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    1. Bem verdade amiga, bem verdade!
      Mas o que vale é que ainda vai havendo gente "louca" que luta por uma aldeia/um país melhor!!! :-)

      Beijinhos e continuação de boa semana linda!

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  2. Há muitos anos visitei, julgo que em Miramar, uma capela da Nª. Srª. da Pedra.
    Não sei se tem algo a ver com essa lenda que descreves de um forma magnifica, aliás, como nos tens habituado.
    É um belo exemplo das pessoas que, como tu, acreditam e que nunca desistem.
    Sinceramente adorei esta lufada de ar fresco.
    Um beijo.

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    1. Ai Manuel, que a baba foi tanta que fiquei incapacitada de vir responder ao teu mui elogioso comentário durante um ror de tempo! ;-P

      Muito obrigada pelos elogios meu amigo, é sempre bom saber que o que escrevo agrada! :-D
      Não se refere a nenhuma Senhora da Pedra em particular, muito menos religiosa. Foi uma história que inventei para a Fábrica de Histórias mesmo. Mas era fixe se realmente virasse lenda! ;-)

      Beijinhos e continuação de boa semana! :-D

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  3. Sónia
    Agora sou eu que digo: "Muito bem escrito". Linda história e um gosto ler-te. Grande abraço

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    1. Muito obrigada Teresa! :-)

      Beijinhos e bem-vinda de volta! :-D

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