sexta-feira, 25 de maio de 2012

"Era de noite, num descampado..."


Era de noite, num descampado…
Bem, não era um completo descampado, porque havia uma árvore no meio das ervas altas…
Mas era de noite e não havia mais nada que não fosse aquela árvore e nós em quilómetros em redor!
Pronto, não eram quilómetros, mas o muro da herdade estava bem longe, tão longe que nem se conseguia ver a porta de madeira por onde o Pedro fazia sair as ovelhas todas as manhãs para irem pastar no preciso mesmo local onde estava a árvore. Sim, porque tu bem sabes como o Sol é forte por estas bandas no Verão e, sendo aquela a única árvore nas redondezas, era lá que ele e o Chaparro, o pachorrento Rafeiro Alentejano que sempre o acompanhava no pastoreio, se refugiavam.
Mas voltando à história…

Era de noite, num descampado com uma árvore solitária, a muitos metros dos limites da herdade mais próxima, sob a maior Lua que alguma vez vi na vida… até essa altura era, pelo menos! 
Desde aí já vi a Lua bem maior, mas juro-te que, naquele dia… – melhor dizendo, naquela noite, ela estava o maior que eu alguma vez a vira na minha jovem vida!
E tão brilhante que ela estava! Estava uma Lua cheia bem redondinha…
Bem, talvez não “bem redondinha”, porque me lembro de pensar que já estava a começar a desaparecer um bocadinho, que já não era um círculo tão perfeito como a moeda de prata que o meu padrinho me tinha dado na Páscoa e que eu guardara no frasco dos meus tesouros – juntamente com o meu pião e a fisga que ganhara ao Rapa ao filho da lavadeira que vinha tratar da roupa toda da herdade duas vezes por semana.
Mas não deixava de ser a Lua Cheia maior e mais brilhante que eu alguma vez vira na vida!

Estava uma típica noite abafada e sem vento de Verão e ouviam-se os grilos e as cigarras, as melgas zanzavam à minha volta enquanto eu caminhava para a árvore, e as ervas restolhavam secas debaixo dos meus pés, mas não se ouvia qualquer outro som.
Combinara com o Emílio que o duelo seria à meia-noite, mas adormecera e já o relógio da sala marcava duas e vinte da manhã quando eu saí de casa pela porta da cozinha. Por isso, quando finalmente cheguei à árvore, não estranhei vê-lo a dormir encostado ao tronco.
Ainda pensei em não o acordar, só para não o incomodar – não teve nada a haver com o facto de ele ser mais alto e entroncado que eu, não pensem! Só me parecia mesmo mau estar a incomodá-lo!
Só que, quando dei um passo para me vir embora, quebrei um galho seco que estava no chão e ele despertou.
Dum salto pôs-se em pé e, honestamente, eu temi o pior.
Mas ele não me atacou logo e, em vez disso, só disse com uma voz muito séria:
- O duelo está cancelado, ela começou a namorar com o Quim das Cortiças.
Só te digo: o meu coração parou de bater durante tanto tempo que eu devia ter morrido!
Pronto, está bem… Não parou mesmo, mas foi como se tivesse parado de tão grande que foi o choque daquela notícia: a minha amada Maria namorava com outro! E eu nem sequer chegara a ter que lutar por ela! Perdera-a sem sequer tentar!
O Emílio, que me quisera partir todo quando soube que eu achava “a sua Maria” bonita e exigira aquele duelo nocturno para se decidir quem havia de namorar com ela, não parecia muito chateado. Muito pelo contrário, comportava-se como se aquilo fosse a coisa mais corriqueira do mundo.
Então tive uma ideia que, na altura, me pareceu brilhante e, por isso, perguntei-lhe, cheio de uma confiança que não sentia:
- Ó Emílio, pá, estás a tentar enganar-me! Queres-te é safar de ter que lutar comigo e ficar com a Maria para ti sem esforço.
No instante seguinte estava caído no chão com um líquido quente a escorrer-me do nariz.
- Se eu quisesse ganhava-te “sem esforço” pá, nunca te esqueças disso. O que eu estou a dizer é verdade. Eu não minto, pá!
Ele nunca fora de muitas palavras mas, acima de tudo, nunca fora de mentir – eu devia ter pensado nisso antes de abrir a minha grande bocarra!
- Mas então porque é que não estás chateado? Se a mim me querias bater, porque é que não vais dar um enxerto de porrada ao Quim? – perguntei eu enquanto limpava o sangue ao lenço que, avisadamente, trouxera no bolso.
- Se ela quer ficar com ele, que fique, eu até nem o gramo! Se ele fosse meu amigo, teríamos que deixar tudo em pratos limpos, mas ele não presta, por isso estou-me borrifando. O problema é só dela!
Nessa altura fiquei a saber o que é a honra entre amigos, o que quisera dizer o meu tio quando comunicara o seu divórcio à família toda num almoço de Domingo: “Os amigos são as únicas pessoas com quem se pode contar na vida. As gajas trocam-nos quando ficamos pobres, mas os amigos não!”
Percebi que o Emílio quisera lutar comigo para que nenhum de nós ficasse magoado por a ter perdido para o outro e essa dor afectasse a nossa amizade. A dor seria só física e passaria, mas a nossa amizade continuaria e superaria aquele obstáculo.
Mas a Maria trocara-nos as voltas!
O Quim era mais velho, alto, forte e até tinha um emprego, por isso todas as moças o cobiçavam, mas nunca pensara que a Maria tivesse interesse em namorar com aquele…
- É um bronco que nem sequer acabou a terceira classe, mas se ela o prefere, que faça bom proveito.

As palavras que o Emílio proferira acabaram por me fazer perceber que não valia a pena estar a pensar mais naquilo.
De repente ouviu-se um tiro.
Não sabíamos donde viera, mas não queríamos descobrir. Desatámos a correr pelo descampado fora na direcção oposta à origem daquele som aterrador e espantámos as codornizes que dormiam entre as ervas, fazendo-as voar por todo o lado.
Imagem retirada do FB
- Vai para casa e encontramo-nos amanhã na escola. – gritou ele enquanto guinava em direcção ao povoado.
Continuei a correr, mas desta vez para a herdade.
Quando lá cheguei, o meu pai estava debruçado da janela do seu quarto a falar com o Sr. Penteado, o capataz. Como era no lado da casa oposto à cozinha, pude entrar sem ninguém me ver. Enfiei-me na cama e cobri-me com os lençóis. Quando percebi que não fora apanhado, adormeci.

No dia a seguir, a caminho da escola, descobri o que acontecera: o Quim fôra apanhado no meio da seara de trigo com a Maria. O pai dela apanhara-os e, sob ameaça da espingarda, havia-lhe deixado bem claro que a sua filha não era para brincadeiras. Maria interpusera-se e argumentara com o pai que Quim prometera casar com ela, mas quando se virou, viu que ele desatara a fugir, deixando-a entregue à ira do pai, pelo que a própria Maria sacara da arma e lhe acertara uma chumbada no traseiro.
Quando dei de caras com o Emílio, percebi que ele já ouvira a mesma história e, juntos, rimos a bom rir. Haviamo-nos livrado de boa!

- Papá, com quem é que a Maria acabou por casar?
- Com o Quim!
- A sério? Mas ele abandonou-a…
- E ela nunca mais o deixará esquecer disso na vida! Tu sabes como ela é.
- Sei?
- Sim, a Maria é a Dona Maria da “Mercearia  do Corrido”, que era do pai dela, e o marido é o Sr. Joaquim, que faz tudo sozinho enquanto ela se senta a ver televisão ou fica à porta a falar com as comadres.
- EhEh, safaste-te mesmo de boa papá!
- Pois foi meu filho, pois foi!
- E o Emílio, quem é?
- Então, é o teu tio Zé! Quando a tua tia Ana começou a namorar com ele, preferiu tratá-lo pelo segundo nome e ele é Zé desde aí.
- Espero vir a ter histórias fixes assim para contar aos meus filhos!

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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema "Esta noite na cidade"

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