Senta-se no sofá de dois
lugares, logo seguida da mãe que esfrega as mãos no avental.
– Acabo de fazer o almoço mais tarde. – disse
Maria de si para si, enquanto se aconchegava com a filha no sofá.
Ladeando o monitor estão
duas janelas que deixam vislumbrar o Danúbio, mas mãe e filha ignoram o
maravilhoso rio, concentrando-se no programa de TVNet.
Rita Bem-Escrita (RBE) - Bem-vindos a mais um programa “Escrever ou
não Escrever… eis a Questão!”, onde entrevistamos grandes vultos da Literatura
Nacional.
Hoje connosco temos a
célebre escritora Sónia DaVeiga, um nome incontornável da literatura portuguesa
contemporânea, com mais de uma dezena de livros publicados sobre os mais
variados temas, um dos quais recomendado pelo conceituado Clube de Leitura da
Oprah.
Seja bem-vinda Sónia.
Sónia DaVeiga (SDV) - Obrigada Rita, é uma honra poder
participar num programa tão importante da TVNet nacional e ser entrevistada por
si.
RBE – Muito obrigada.
Vamos então começar pelo
início: o que a levou a começar a escrever?
SDV – Acho que não foi “começar a escrever”, mas antes “dar-me espaço para
escrever”. Comecei a tirar tempo para escrever mais do que apenas pequenos
textos em blogues e pequenas participações aqui e acolá, a dedicar-me a um
género de escrita que me permitisse englobar muitos dos meus interesses mas,
simultaneamente, fosse agradável de ler, até divertido. Sempre senti
necessidade de escrever e, finalmente, consegui descobrir uma maneira de o
fazer bem e ainda ganhar dinheiro com isso! [risos]
RBE – Apesar de os seus livros serem extremamente baratos…
SDV – Sim! Foi um compromisso que fiz comigo mesma: desenvolver a minha
capacidade de síntese, aligeirar a leitura, para que o livro fosse fácil de ler
- atraindo um público que não gosta de “calhamaços” – e barato, tanto para as
editoras como para o público final. É sabido que os livros não são considerados
um bem de primeira necessidade e não é possível pedir ao cidadão comum que
pague tanto por um livro como pagaria pela alimentação de uma semana inteira ou
mesmo de um mês!
RBE – Realmente, a crise provocou uma alteração no mercado livreiro
e cada vez mais as editoras optam por pequenos contos ou livros práticos em
detrimento da literatura propriamente dita. Os seus livros são um caso à parte
pois englobam um pouco de tudo, apesar de serem curtos – não ultrapassa as 100
páginas, creio…
SDV – Exactamente. O meu limite de escrita – já com espaçamento e tamanho
de letra que permitam a sua leitura por pessoas com deficiência visual – é de
100 páginas, o que equivale a 20 páginas de um volume d’ “Os Maias”, por exemplo. A ideia é precisamente
conseguir condensar o máximo de informação útil numa fábula divertida, com
muita crítica social e optimismo à mistura. Nem sempre é fácil e dá vontade de
escrever muito mais, mas o meu crescimento na arte da síntese permitiu-me
seguir este caminho e está a ser muito gratificante.
RBE – Mas porquê só aos 42 anos o primeiro livro publicado?
SDV – Até aos 20 anos andamos num turbilhão, nos 20 somos o turbilhão, nos
30 começamos a amainar e nos 40 temos finalmente a calma de espírito e a
confiança necessárias para uma empresa deste género. Temos que ter uma óptima
consciência de nós próprios para descobrir o género que nos distingue dos
outros e que demonstra a nossa singularidade, para escrever bem e, apenas nessa
altura, podemos aspirar a ganhar a vida com algo que nos dá prazer e que,
esperamos, ajude os outros a ter uma visão melhor da vida.
RBE – A maturidade é óbvia nos seus textos, mas temperada com uma
candura e uma diversão que roçam o infantil. Como é que consegue esta mistura
tão invulgar?
SDV – Ter filhos ajuda-nos a ver o mundo com outros olhos, uns olhos mais
simples e objectivos, que nos permitem distinguir muito mais facilmente o fútil
do útil. Explicar um conceito complexo a uma criança é óptimo para colocar as
coisas em perspectiva. Além disso, sempre que tenho um livro novo quase pronto,
passo-o pelo crivo dos meus críticos mais ferozes – os meus filhos – e eles
ajudam-me a conseguir tirar a parra e a ficar com a uva.
RBE – Algo que caracteriza a sua escrita é precisamente o uso
frequente de ditados e dizeres populares.
SDV – Sim, acredito piamente que a tradição oral portuguesa deve ser
mantida, preservada como o tesouro que é. A língua viva é permanentemente
mutável, haverão sempre mais e mais acordos ortográficos e estrangeirismos a
entrar nos nossos dicionários, mas a tradição ainda é o que era e muita
sabedoria reside nos contos tradicionais, e em especial nos ditados e dizeres
populares. Claro que isso torna os livros muito mais difíceis de traduzir, mas
não se pode ter tudo…
RBE – Isso não impediu que o seu sétimo livro, o “Nando, o nandu, e
a grande corrida” fosse um sucesso de vendas no estrangeiro, tendo sido
recomendado pela Oprah como “um livro ligeiro que tem muito que ler e
aprender”. A referência à competição aguerrida pelos alimentos e pela água que
se vê hoje em dia um pouco por todo o mundo – em grande parte devido às
alterações climáticas – e à atitude de “enfiar a cabeça na areia” que os países
mais desenvolvidos teimam em manter, foi aqui magistralmente abordada como uma
fábula ligeira e agradável de ler.
SDV – Muito obrigada… Realmente esse saiu muito bem. Os meus dois críticos
quase não tiveram o que apontar logo na primeira leitura. [risos]
Foi uma honra ver o livro recomendado um pouco por todo o mundo e, em
especial, pela Oprah – a sua influência como ícone mundial é notória e as
vendas dispararam depois disso -, mas foi também muito gratificante o caminho
até esse ponto. Colaborei com tradutores do mundo inteiro para facilitar a
tradução e essa colaboração estreita permitiu-me aprender vários contos,
dizeres e ditados tradicionais de todos os continentes, bem como perceber quais
os assuntos que mais preocupam os povos em diferentes partes do mundo. Isto
tornou muito mais fácil a adaptação das obras em cada país e a internacionalização
das fábulas seguintes – há muitos pontos em comum, mas as especificidades
culturais são muito importantes no meu trabalho. E já que não posso passar umas
temporadas a morar noutros países e continentes, essa interacção foi preciosa.
RBE – A emigração continua a não estar nos seus planos, apesar da
dificuldade de recuperação da economia nacional e da carga fiscal que recai
sobre os cidadãos e em especial sobre os artistas?
SDV – Ainda não. Com a eleição duma mulher para o cargo de
Primeiro-Ministro e um independente na Presidência da República, creio que a
esperança na recuperação da nação ganhou um novo fôlego e isso faz-me querer
continuar a contribuir e não saltar do barco. O próximo livro é precisamente
sobre isso: perseverança, confiança e aceitação da mudança necessária.
RBE – Para quando está prevista a sua publicação?
SDV – No início do próximo mês, espero que a tempo da comemoração do dia da
República.
RBE – E qual é o título?
SDV – Não posso divulgar ainda – é segredo de Estado! [risos]
RBE – Ficamos a aguardá-lo ansiosamente, Sónia.
Bem, como o tempo para o
nosso programa é limitado, peço-lhe apenas que deixe aqui umas palavras para
quem ainda não publicou um livro e quer fazê-lo.
SDV – Pensem no que vos difere dos demais, no que faria alguém abdicar
duma refeição para vos ler. Pensem no tipo de livro que sonham escrever ou já
escreveram e descrevam-no. Vejam o que tem de único e aperfeiçoem essa técnica.
Quando vocês reconhecerem a vossa própria escrita num texto que escreveram há
anos e do qual já nem se lembravam, saberão que descobriram o vosso cunho e que
estão prontos para publicar. E não desistam dos vossos sonhos! Nunca!
RBE – Muito obrigada Sónia pela sua visita e pela partilha
connosco.
SDV – Obrigada eu!
RBE - Da nossa parte é tudo por hoje. Cá vos esperamos para mais um
programa “Escrever ou não Escrever… eis a Questão!”. Até para a semana.
- Mamã, quando sair o
próximo livro dela, compras-me? – diz a pequena, encarando a mãe.
- Sim minha linda. Eu
também gosto muito de os ler. – aprendera a falar devagar e a pronunciar as
sílabas bem abertas para ajudar com a deficiência auditiva da filha. Em alemão
era mais difícil, mas como bilingue desde nascença – Hans respeitava a
ascendência lusa de Maria -, Rebeca dominava ambas.
- Gosto tanto de ler
coisas em português e sobre Portugal…
- E eu gosto muito que tu
gostes, liebchen. É bom que queiras
saber mais sobre o meu país e a minha cultura! – afagou o cabelo da filha e
levantou-se, dirigindo-se para a cozinha.
Pensou na amiga que vira
pela última vez quando deixara Portugal para vir morar em Viena com Hans. Nem
acreditava que acabara de a ver num programa de TVNet na RTPinternacional. Como
havia mudado - mais brancas, rugas de expressão mais marcadas - mas, contudo,
permanecia a mesma: com o mesmo sorriso aberto e a mesma maneira simples de estar.
Feliz pelo sucesso da sua
amiga, decidiu que iria finalmente enviar-lhe o seu livro, o magote de folhas
impressas que tinha na mesinha de cabeceira há muito tempo e que Hans já
quisera enviar para publicação antes. Finalmente tinha a coragem necessária
para dar o passo final.
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema “Escrever ou não Escrever… eis a Questão!”
Sabes que um dia esta entrevista vai ser real?
ResponderEliminarAcredito e desejo que sim.
Manuel, sou optimista e sonhadora, mas nem eu sonho tão alto!
ResponderEliminarMas já ser a que manda o manuscrito depois de te ver a dar uma entrevista deste género, isso já acredito! :-)
Beijinhos e boa semana!
Hoje,o teu comentário, teve o condão de me fazer rir.
ResponderEliminarSou muito tímido e não gosto de mediatismo.
Mas fiquei quase vaidoso.
Um beijo
Já disse o que tinha a dizer e reitero a minha posição: serás tu primeiro! :-)
ResponderEliminarE não te esqueças do que escrevi lá no teu cantinho, porque Novembro está já aí à porta!!! :-)
Beijinhos e bom fim-de-semana (e muitas luzes de presença!!!)