domingo, 9 de outubro de 2011

“Escrever ou não Escrever… eis a Questão!”

- Mamã, vai começar. Anda ver! – diz Rebeca enquanto aumenta o som do monitor com um simples toque no vidro interactivo e, com outro, activa as legendas.
Senta-se no sofá de dois lugares, logo seguida da mãe que esfrega as mãos no avental.
 – Acabo de fazer o almoço mais tarde. – disse Maria de si para si, enquanto se aconchegava com a filha no sofá.
Ladeando o monitor estão duas janelas que deixam vislumbrar o Danúbio, mas mãe e filha ignoram o maravilhoso rio, concentrando-se no programa de TVNet.

Rita Bem-Escrita (RBE) - Bem-vindos a mais um programa “Escrever ou não Escrever… eis a Questão!”, onde entrevistamos grandes vultos da Literatura Nacional.
Hoje connosco temos a célebre escritora Sónia DaVeiga, um nome incontornável da literatura portuguesa contemporânea, com mais de uma dezena de livros publicados sobre os mais variados temas, um dos quais recomendado pelo conceituado Clube de Leitura da Oprah.
Seja bem-vinda Sónia.
Sónia DaVeiga (SDV) - Obrigada Rita, é uma honra poder participar num programa tão importante da TVNet nacional e ser entrevistada por si.
RBE – Muito obrigada.
Vamos então começar pelo início: o que a levou a começar a escrever?
SDV – Acho que não foi “começar a escrever”, mas antes “dar-me espaço para escrever”. Comecei a tirar tempo para escrever mais do que apenas pequenos textos em blogues e pequenas participações aqui e acolá, a dedicar-me a um género de escrita que me permitisse englobar muitos dos meus interesses mas, simultaneamente, fosse agradável de ler, até divertido. Sempre senti necessidade de escrever e, finalmente, consegui descobrir uma maneira de o fazer bem e ainda ganhar dinheiro com isso! [risos]
RBE – Apesar de os seus livros serem extremamente baratos…
SDV – Sim! Foi um compromisso que fiz comigo mesma: desenvolver a minha capacidade de síntese, aligeirar a leitura, para que o livro fosse fácil de ler - atraindo um público que não gosta de “calhamaços” – e barato, tanto para as editoras como para o público final. É sabido que os livros não são considerados um bem de primeira necessidade e não é possível pedir ao cidadão comum que pague tanto por um livro como pagaria pela alimentação de uma semana inteira ou mesmo de um mês!
RBE – Realmente, a crise provocou uma alteração no mercado livreiro e cada vez mais as editoras optam por pequenos contos ou livros práticos em detrimento da literatura propriamente dita. Os seus livros são um caso à parte pois englobam um pouco de tudo, apesar de serem curtos – não ultrapassa as 100 páginas, creio…
SDV – Exactamente. O meu limite de escrita – já com espaçamento e tamanho de letra que permitam a sua leitura por pessoas com deficiência visual – é de 100 páginas, o que equivale a 20 páginas de um volume d’ “Os Maias”, por exemplo. A ideia é precisamente conseguir condensar o máximo de informação útil numa fábula divertida, com muita crítica social e optimismo à mistura. Nem sempre é fácil e dá vontade de escrever muito mais, mas o meu crescimento na arte da síntese permitiu-me seguir este caminho e está a ser muito gratificante.
RBE – Mas porquê só aos 42 anos o primeiro livro publicado?
SDV – Até aos 20 anos andamos num turbilhão, nos 20 somos o turbilhão, nos 30 começamos a amainar e nos 40 temos finalmente a calma de espírito e a confiança necessárias para uma empresa deste género. Temos que ter uma óptima consciência de nós próprios para descobrir o género que nos distingue dos outros e que demonstra a nossa singularidade, para escrever bem e, apenas nessa altura, podemos aspirar a ganhar a vida com algo que nos dá prazer e que, esperamos, ajude os outros a ter uma visão melhor da vida.
RBE – A maturidade é óbvia nos seus textos, mas temperada com uma candura e uma diversão que roçam o infantil. Como é que consegue esta mistura tão invulgar?
SDV – Ter filhos ajuda-nos a ver o mundo com outros olhos, uns olhos mais simples e objectivos, que nos permitem distinguir muito mais facilmente o fútil do útil. Explicar um conceito complexo a uma criança é óptimo para colocar as coisas em perspectiva. Além disso, sempre que tenho um livro novo quase pronto, passo-o pelo crivo dos meus críticos mais ferozes – os meus filhos – e eles ajudam-me a conseguir tirar a parra e a ficar com a uva.
RBE – Algo que caracteriza a sua escrita é precisamente o uso frequente de ditados e dizeres populares.
SDV – Sim, acredito piamente que a tradição oral portuguesa deve ser mantida, preservada como o tesouro que é. A língua viva é permanentemente mutável, haverão sempre mais e mais acordos ortográficos e estrangeirismos a entrar nos nossos dicionários, mas a tradição ainda é o que era e muita sabedoria reside nos contos tradicionais, e em especial nos ditados e dizeres populares. Claro que isso torna os livros muito mais difíceis de traduzir, mas não se pode ter tudo…
RBE – Isso não impediu que o seu sétimo livro, o “Nando, o nandu, e a grande corrida” fosse um sucesso de vendas no estrangeiro, tendo sido recomendado pela Oprah como “um livro ligeiro que tem muito que ler e aprender”. A referência à competição aguerrida pelos alimentos e pela água que se vê hoje em dia um pouco por todo o mundo – em grande parte devido às alterações climáticas – e à atitude de “enfiar a cabeça na areia” que os países mais desenvolvidos teimam em manter, foi aqui magistralmente abordada como uma fábula ligeira e agradável de ler.
SDV – Muito obrigada… Realmente esse saiu muito bem. Os meus dois críticos quase não tiveram o que apontar logo na primeira leitura. [risos]
Foi uma honra ver o livro recomendado um pouco por todo o mundo e, em especial, pela Oprah – a sua influência como ícone mundial é notória e as vendas dispararam depois disso -, mas foi também muito gratificante o caminho até esse ponto. Colaborei com tradutores do mundo inteiro para facilitar a tradução e essa colaboração estreita permitiu-me aprender vários contos, dizeres e ditados tradicionais de todos os continentes, bem como perceber quais os assuntos que mais preocupam os povos em diferentes partes do mundo. Isto tornou muito mais fácil a adaptação das obras em cada país e a internacionalização das fábulas seguintes – há muitos pontos em comum, mas as especificidades culturais são muito importantes no meu trabalho. E já que não posso passar umas temporadas a morar noutros países e continentes, essa interacção foi preciosa.
RBE – A emigração continua a não estar nos seus planos, apesar da dificuldade de recuperação da economia nacional e da carga fiscal que recai sobre os cidadãos e em especial sobre os artistas?
SDV – Ainda não. Com a eleição duma mulher para o cargo de Primeiro-Ministro e um independente na Presidência da República, creio que a esperança na recuperação da nação ganhou um novo fôlego e isso faz-me querer continuar a contribuir e não saltar do barco. O próximo livro é precisamente sobre isso: perseverança, confiança e aceitação da mudança necessária.
RBE – Para quando está prevista a sua publicação?
SDV – No início do próximo mês, espero que a tempo da comemoração do dia da República.
RBE – E qual é o título?
SDV – Não posso divulgar ainda – é segredo de Estado! [risos]
RBE – Ficamos a aguardá-lo ansiosamente, Sónia.
Bem, como o tempo para o nosso programa é limitado, peço-lhe apenas que deixe aqui umas palavras para quem ainda não publicou um livro e quer fazê-lo.
SDV – Pensem no que vos difere dos demais, no que faria alguém abdicar duma refeição para vos ler. Pensem no tipo de livro que sonham escrever ou já escreveram e descrevam-no. Vejam o que tem de único e aperfeiçoem essa técnica. Quando vocês reconhecerem a vossa própria escrita num texto que escreveram há anos e do qual já nem se lembravam, saberão que descobriram o vosso cunho e que estão prontos para publicar. E não desistam dos vossos sonhos! Nunca!
RBE – Muito obrigada Sónia pela sua visita e pela partilha connosco.
SDV – Obrigada eu!
RBE - Da nossa parte é tudo por hoje. Cá vos esperamos para mais um programa “Escrever ou não Escrever… eis a Questão!”. Até para a semana.

- Mamã, quando sair o próximo livro dela, compras-me? – diz a pequena, encarando a mãe.
- Sim minha linda. Eu também gosto muito de os ler. – aprendera a falar devagar e a pronunciar as sílabas bem abertas para ajudar com a deficiência auditiva da filha. Em alemão era mais difícil, mas como bilingue desde nascença – Hans respeitava a ascendência lusa de Maria -, Rebeca dominava ambas.
- Gosto tanto de ler coisas em português e sobre Portugal…
- E eu gosto muito que tu gostes, liebchen. É bom que queiras saber mais sobre o meu país e a minha cultura! – afagou o cabelo da filha e levantou-se, dirigindo-se para a cozinha.
Pensou na amiga que vira pela última vez quando deixara Portugal para vir morar em Viena com Hans. Nem acreditava que acabara de a ver num programa de TVNet na RTPinternacional. Como havia mudado - mais brancas, rugas de expressão mais marcadas - mas, contudo, permanecia a mesma: com o mesmo sorriso aberto e a mesma maneira simples de estar.
Feliz pelo sucesso da sua amiga, decidiu que iria finalmente enviar-lhe o seu livro, o magote de folhas impressas que tinha na mesinha de cabeceira há muito tempo e que Hans já quisera enviar para publicação antes. Finalmente tinha a coragem necessária para dar o passo final.


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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema 
Escrever ou não Escrever… eis a Questão!

4 comentários:

  1. Sabes que um dia esta entrevista vai ser real?
    Acredito e desejo que sim.

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  2. Manuel, sou optimista e sonhadora, mas nem eu sonho tão alto!
    Mas já ser a que manda o manuscrito depois de te ver a dar uma entrevista deste género, isso já acredito! :-)
    Beijinhos e boa semana!

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  3. Hoje,o teu comentário, teve o condão de me fazer rir.
    Sou muito tímido e não gosto de mediatismo.
    Mas fiquei quase vaidoso.
    Um beijo

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  4. Já disse o que tinha a dizer e reitero a minha posição: serás tu primeiro! :-)
    E não te esqueças do que escrevi lá no teu cantinho, porque Novembro está já aí à porta!!! :-)
    Beijinhos e bom fim-de-semana (e muitas luzes de presença!!!)

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