- Mamã, conta-me a história das noites de Lua Cheia, por favor.
A pequena Sofia estava já deitada e aconchegada na cama, observando a sua mãe. Esta estava sentada aos pés da cama, olhando hipnotizada para a linda Lua Cheia de Verão que iluminava todo o quarto através da janela aberta, com um intenso brilho no olhar, misto de esperança e tristeza.
Catarina sobressaltou-se ao ser acordada dos seus devaneios.
- Já estás farta de a ouvir, fofinha. Além de que já te li uma história hoje! “O Capuchinho Vermelho” não te chega?!?
- Ó mamã, eu quero… Por favor… - o olhar de cachorrinho triste fazia-a ceder sempre.
- Pronto, ‘tá bem… Mas tens que me deixar deitar aí ao teu lado!
A pequena Sofia encostou-se à parede e Catarina deitou-se ao lado da filha, cobrindo-se com o cobertor.
Pigarreou enquanto Sofia se ajeitava e começou a narrativa:
“Afonso era um homem alto, loiro, de olhos azuis como o céu.
Brilhante Professor universitário, havia desaparecido do meio havia anos, pouco antes da ameaça da ditadura se concretizar. Agora dedicava-se a ajudar pessoas de elevado valor social e intelectual a escapar do país.
Encontrava-se na sua pequena cabana na Serra, a preparar a próxima missão: auxiliar uma vizinha e a sua mãe a escapar, pois ambas estavam envolvidas numa rede de apoio a mulheres e viúvas de presos políticos e opositores do Regime. Haviam sido denunciadas e a sua fonte avisara-o que tinha apenas 2 dias para as ajudar.
Ultimou os preparativos e desceu até ao rio, onde ficava a pequena casa de pedra delas.
O rio estava cheio e, enquanto saltava pelas rochas na margem, reparou num pescador encasacado (estava um dia soalheiro, mas o frio era muito pois estavam em pleno Inverno) que segurava uma cana firmemente com ambas as mãos, mas prestes a perder a luta com o peixe e a correnteza. Acercou-se e agarrou a cana precisamente no momento em que ela escorregava das mãos enluvadas do pescador.
- Que parvoíce, vir pescar de luvas senhor, não sabe que reduz o atrito? Ao menos…
Afonso interrompeu o seu discurso ao perceber que não se tratava de um pescador, mas sim de uma pescadora.
- Desculpe menina, pensei que…
- Não se preocupe, eu realmente fiz asneira, só que está mesmo muito frio e eu gosto mais das minhas mãos cor-de-rosa do que rôxas.
Ele sorriu e, com a destreza de um profissional, recolheu o fio da cana e, removeu o peixe do anzol, oferecendo-o à jovem.
- Obrigada. Estava a ver que não ia aparecer com almoço hoje. Estou em casa duma amiga e não queria continuar a abusar da generosidade dela.
Ela apontara para a casa das suas vizinhas.
- Era mesmo para lá que eu ia, por isso se quiser ajuda para se deslocar por entre as rochas…
- Não obrigada, eu safo-me bem sozinha! – gritou ela enquanto saltava como uma corça de rocha em rocha.
Estavam a chegar ao seu destino quando, na estrada acima, se começaram a ouvir berros. Mãe e filha saíram da cabana para ver qual era a razão de tanta agitação, mas Afonso interceptou-as.
- Descobriram a vossa rede e vêm-vos buscar, têm que vir as duas comigo. Você também. – e, agarrando no braço da jovem, voltaram para o local onde ela estivera a pescar. Ele afastou uns arbustos e surgiu um caiaque.
Colocando uma bolsa de plástico com documentos falsos na mão de cada uma, deu-lhes instruções rápidas para descerem o rio até à vila, encontrarem-se lá com o contacto que as levaria para lá da fronteira e nunca mais voltarem.
A jovem mal teve tempo de se despedir.
- Eu tomo conta dela. – dissera ele ao empurrar o caiaque e, ainda mal elas haviam começado a remar, já ele a levava pela mão para a sua cabana.
Durante semanas acolhera-a. Ela aprendera imenso com ele e, além de tratar da casa, começara a ajudá-lo nas suas missões.
A Primavera já havia chegado em força quando a notícia da ordem de prisão de Afonso chegara.
- Tenho que partir, mas não tenho como te levar… – a preocupação no olhar dele iluminara o coração da jovem.
Ela abraçou-o e, esticando-se para lhe chegar ao ouvido, sussurrou:
- Amo-te e respeito-te muito. Faz o que achares melhor, que eu estarei sempre aqui para ti.
O único beijo que trocaram fora pleno de sentimentos, mas a urgência era muita e ele partiu.
Chegou o Verão e, numa noite de Lua Cheia tão bonita como a de hoje, ele regressara. Estava muito mais magro e o seu cabelo muito mais branco, mas os seus olhos continuavam a ser tão azuis como o céu, mesmo sob a luz da Lua.
As palavras trocadas foram poucas, pois a saudade era demasiada.
Na manhã seguinte, quando ela acordou, encontrou uma carta na marca ainda quente que o seu corpo fizera no colchão de palha.
“Minha linda Catarina,
Perdoa-me a partida de cobarde, mas não suportaria despedir-me de ti sem saber se alguma vez te voltarei a ver.
A cabana é agora tua. Tens aí os papéis, por isso podes vendê-la se preferires.
Amo-te e respeito-te muito. Faz o que achares melhor, que eu estarei sempre aqui para ti, mesmo que à distância.
Teu, para sempre,
Afonso”
Na Primavera seguinte, Catarina dera à luz uma menina, a quem pôs o nome de Sofia, em honra da sabedoria do pai.
Desde essa noite, há 10 anos, Catarina mantém a janela aberta nas noites de Lua Cheia, na esperança do regresso de Afonso.”
A pequena Sofia parecia dormir, por isso Catarina levantou-se, fechou a janela para a menina não ter frio e foi para a sala.
Sentou-se na cadeira de baloiço, virada para a janela aberta, esperando-o.
Sofia esperou que a mãe saísse e, sem fazer barulho, saiu da cama e foi até à mansarda. Subiu para cima das almofadas, abriu a janela e esperou pelo pai, o homem sábio de quem herdara a cor dos olhos e dos longos cabelos.
Tal como faziam em todas as noites de Lua Cheia.
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema "Palavras para uma Imagem"

Olá Sónia!
ResponderEliminarA história das noites de Lua cheia é um pouco "pesada" para ser lida a uma criança que se quer adormeça na paz dos anjos... isto foi o meu primeiro "sentir". Mas depois percebi claramente o sentido e significado e gostei mesmo muito porque me prendeu ao enredo e fez-me (ando mesmo lamechas pah) tremelicar o queixo na parte da carta a Catarina... enfim... ;)
"Todo o grande amor só é bem grande se for triste" já dizia o grande Vínicius
Beijo e boa semana
Natacha, realmente a "história de embalar" ficou pesada e não serve para embalar ninguém...
ResponderEliminarNão acredito que se devam contar apenas histórias bonitas e inventadas às crianças - por vezes aprende-se bem mais com histórias mais próximas e ficamos a conhecer-nos melhor e a compreender os que nos rodeiam...
Quanto à lamechice... isso anda a ser uma constante, mas ou era isso, ou uma história mesmo da pesada, e não me apeteceu ir por aí.
Vinicius de Moraes é uma grande referência!!!
Beijinhos e boa semana.
Sónia, estou contigo. Também não penso que devamos apenas pintar quadros idílicos às crianças... mas se calhar a hora de deitar não é uma boa hora ;)
ResponderEliminarEscuta, quando falei em lamechisse referia-me a mim, sou eu quem anda lamechas e a mais pequena "coisa" me deixa de lágrima ao canto do olho :)
Beijo, vou bulir ...
Aqui está uma bonita história de Amor, daquelas que nos prende, para chegar ao fim e revelar-se de um jeito que encanta e faz sorrir.Gostei muito Sónia.
ResponderEliminarNatacha, concordo... ;-)
ResponderEliminarNão és só tu, não te preocupes!!! ;-)
Continuaçao de boa semana!
Obrigada Cláudio! :-)
ResponderEliminarAgradeço!
Continuação de boa semana!
Uma história diferente..
ResponderEliminarGostei.. mesmo..
Bom fim de semana!
Um grande beijinho :)
Obrigada querida Ametista! :-)
ResponderEliminarBom fim de Domingo e boa semana!