sexta-feira, 11 de março de 2011

"Astor"

Ser ascensorista num pequeno hotel nunca fôra o seu sonho, mas Ana adorava o que fazia. Conhecia pessoas novas todos os dias e conhecia todos os “hóspedes permanentes” melhor que muitos membros da sua própria família!
- Piso térreo. – dissera-o maquinalmente e já estava a abrir a porta do elevador a um casal de americanos que partia hoje, quando eles insistiram para tirar mais uma fotografia. Como se o monte de fotografias e filmagens que fizeram sempre que usavam o bendito do ascensor ainda não chegasse!
Despediu-se deles e, ainda mal havia respirado de alívio, quando viu chegar Carolina, esbelta num fantástico tailleur cinzento e trench vermelho, que condizia com os stilettos vermelhos mais bem engraxados que ela alguma vez vira fora duma loja. Num braço trazia uma mala cinza e, no outro, um senhor de idade quase meio metro mais baixo que ela, com um aspecto excêntrico que a fazia lembrar um cruzamento de Albert Einstein com o pai do Indiana Jones.
- Bom-dia Carolina. Já regressada de Paris?
- Bom-dia Ana. Sim, encurtei a viagem. Vou só mostrar a vista da penthouse ao Senhor Professor e arrumar as malas que o Joaquim traz aí. – E, desviando-se, mostrou o paquete com tantas malas nas mãos e braços que faria inveja a qualquer polvo.
O elevador era espaçoso, mas Joaquim fez questão de se colocar bem perto de Carolina – há muito que nutria uma admiração pela bela mulher e se roía todo de cada vez que um velhote rico entrava na suite com ela.
Ana rodou a chave de segurança que garantia a privacidade total a quem ocupasse a cobertura e o elevador começou a subir.
- Estou ansioso de poder conversar consigo na sua varanda, vendo a paisagem nesta maravilhosa cidade. – disse o velhote, gesticulando tanto que uma das suas mãos roçou os seios de Carolina – Desculpe-me minha querida, foi sem intenção.
- Não se preocupe Senhor Professor, poderá ter intenção mais tarde… - retorquiu ela baixinho, bem perto da sua orelha, deixando a ideia no ar.
Os olhos do velhote brilharam.
- Quer dizer que posso tocar? – perguntou ele alto, com uma excitação mal contida, como se fôra um miúdo numa loja de doces a pedir autorização aos pais para mexer, começando a tentar agarrá-la ali mesmo.
- Poderá fazer muito mais que tocar, mas tenha calma!
E, enquanto ela se desviava das mãos traquinas daquele velhote guloso, Ana interpunha-se entre os dois homens, para evitar problemas.

Nunca a viagem até ao 7º andar parecera tão longa.
Chegados ao hall de acesso à cobertura, Carolina indicou o caminho para a varanda ao velho excitado, enquanto Ana aguentava Joaquim no elevador e retirava ela as malas com o pretexto de que ia ser preciso colocar as malas dos americanos no táxi o mais rápido possível. Garantiu, tanto ao paquete nervoso como àquela mulher que não perdia a compostura mesmo embaraçada com o comportamento do velhote, que ela própria as transportaria para dentro mais tarde, logo a seguir a ir regar as plantas da Dona Lili do 3º E.
- A irmã foi atacada durante um assalto à casa onde mora sozinha e ela foi visitá-la.
- Oh, coitada! Ainda bem que a Lili lhe foi fazer companhia! Tenho sempre medo duma mulher sozinha…
Ao fechar a porta do elevador, Ana não conseguiu deixar de pensar como era irónico tais palavras saírem da boca daquela mulher.

Carolina esquecera-se de avisar quando regressava, pelo que todas as janelas ainda estavam fechadas e as luzes desligadas.
- Senhor Professor, onde está? Fique quieto para não se magoar em nada, que eu já abro uma portada para termos luz.
Deu uns passos na direcção do escritório, logo à esquerda da entrada e, com a pouca luz que vinha do hall, só conseguiu ver um vulto de olhos arregalados, boca aberta com uns dentes que faziam lembrar um tubarão e mãos como garras a saltar na sua direcção, vindo da escuridão.
- Nããããão! – gritou ela em pânico, apercebendo-se ao longe de um som gutural antes de cair inconsciente.

O dia estava cinzento e o vento frio soprava forte, pelo que as pessoas frente à campa estavam encolhidas dentro dos seus casacos com as golas subidas.
- Como é que é possível que aquele velhote pequenino fosse um assassino em série?!? – perguntou Ana ainda incrédula com o que acontecera. – Se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos e a polícia não tivesse ligado o ADN dele a 5 casos de mortes de mulheres jovens por resolver, nunca teria acreditado!
- Eu bem que não gostei dele. – resmungou Joaquim, empertigando-se todo.
- Algo me disse para ir logo tratar das malas da Carolina antes de ir regar as plantas. Quando me lembro daquele sangue todo, da Carolina ali deitada no chão… Que horror! – estremeceu, encolhendo-se mais ainda.
- Correu tudo bem Ana, é o que interessa. Graças a ti fui logo socorrida. – interveio Carolina. Estava fantástica num casaco comprido de flanela vermelho, segurando um Braco Alemão cinza pela trela.
Joaquim abraçou-a mecanicamente e ela pousou a cabeça no ombro dele.
- Ainda bem que ele não sabia da existência do Astor, do meu salvador. Podia tê-lo magoado… – o cão ergueu o focinho para a dona, mostrando os dois olhos baços que denunciavam a sua cegueira, recebendo as festas da dona com prazer. – Se não se tivesse provado que o Se… que o velho era um assassino, não teriam desistido da ideia de abater o meu cão lindo, que salvou a vida da dona.
O cão deleitava-se com tantos mimos, apesar de algo inquieto com todos os sons e cheiros desconhecidos em redor.
Passado um pouco, a voz rouca e algo embargada de Joaquim fez-se ouvir:
- E o que é mesmo que estamos aqui a fazer frente à sepultura dele?
- Catarse, Joaquim. Preciso de pôr uma pedra sobre o assunto.
Carolina perscrutou o chão em redor e, descobrindo um pequeno pedaço duma laje ali ao lado, atirou-a para cima da terra batida. Suspirou bem forte.
- Já está, podemos ir.
Astor aproveitou a deixa e, alçando a pata, urinou sobre a campa.
Os três afastaram-se, sorrindo, com Astor a abanar a cauda perto da dona.
Aquele assunto estava terminado.
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema "Esta não é uma história de amor".

18 comentários:

  1. Confesso-me divertida com a última atitude do "Astor". Os animais são capazes de se superar e de nos surpreender sempre :)

    Sejas bem regressada às lides ;)

    Bom fim de semana

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  2. Passei para desejar um Bom Domingo e uma risonha semana.
    Gostei muito do que li.
    Beijinhos

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  3. Natacha, os animais são formidáveis mesmo!!! ;-)

    Obrigada pela visita. É bom contribuir para a labuta fabril.
    Boa semana. :-)

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  4. Obrigada e igualmente Dina.
    Ainda bem que gostaste. Tenho que ir ler o teu mocinho.

    É verdade, ando a fazer experiências com as tuas receitas de bolo de chocolate. Depois comunico os resultados, OK?

    Beijinhos!

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  5. Adorei essa purificação.
    Pegou num tema difícil e conseguiu dar-lhe a volta.
    Muito bom e com um final próprio de uma VET.
    Gostei muito Sónia.

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  6. Manuel, muito obrigada!
    Ainda bem que gostou!!! :-D
    Quanto ao final, isto de ser vet não se desliga, n'é?!? ;-)
    Mais uma vez obrigada e uma boa semana!

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  7. Boa história, princesa. Confesso, tive de voltar atrás e voltar a ler, mas está bem engendrada.
    Como sempre bem escrita com um pitada de ironia.
    Abraço.

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  8. O que se podia esperar de alguém que parece ser um cruzamento de Albert Einstein com o pai do Indiana Jones?!!!:)
    Fartei-me de rir com a parte em que o Astor aproveitou a deixa e juntou o útil ao agradável!
    Boa semana!

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  9. Sonia, a tua história não parece de uma
    VET(erinária), mas a de uma VETerana da escrita. Muito boa!Parabéns!
    Adorei!:))

    Um abraço

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  10. Luís:
    Obrigada pela visita e pelo elogio.
    Só não sei se ter que voltar atrás para ler é bom ou mau... :-S
    Beijinho e boa semana.

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  11. Cláudio, se consigo animar a malta, fico feliz! ;-)
    Boa semana!!! :-)

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  12. Ivete, bem-vinda aqui ao meu cantinho!

    E muito obrigada pelo elogio! Palavras destas não se lêem todos os dias!!! :-)
    Um abraço e boa semana.

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  13. Invulgar e muito divertida a tua história!
    Parabéns!

    Um grande beijinho :)

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  14. Obrigada Ametista!
    É bom colocar sorrisos na cara dos outros! Acho que tenho alma de palhaça!!! :-)

    Beijinho!

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  15. Olá Sonia! Já nos conhecemos através das palavras, num blog que ambas visitamos. Não me surpreende nada esta história tão bem narrada, pois, como disse, já conheço a tua facilidade na escrita. Gostei muito da história e, claro, da atitude do Astor. Como cheguei até aqui? Através da fábrica de histórias. Um beijinho e voltarei a visitar-te. Até breve e fica bem!
    Emília

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  16. Obrigada Emília!!! :-)
    É muito bom quando nos dizem que escrevemos bem, especialmente a Emília que tem sempre comentários tão sensíveis e sentidos!
    Então quer dizer que temos operária?!?
    Beijinhos e até breve, pois já sabe que a passadeira vermelha está sempre estendida para si! ;-)

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  17. Não quer dizer que tenhamos operária, não Sonia. Não sou dada a criações; deve ser por não ser muito sonhadora e por isso ficcção não é comigo; claro, poderia contar uma história mais ou menos verídica e então tavez fosse capaz; costumo dizer que sou realista demais e que por isso não consigo ter imaginação para fazer poesia ou escrever histórias. Quem gosta destas coisas é a Hermínia, a minha colaboradora do Começar de Novo e parece-me que ela vai escrever uma. Vamos ver!!! Um beijinho e até breve. Obrigada pela passadeira vermelha; vou já colocar uma no começar de novo para prestigiar os nossos seguidores...copiona, não? Bem...ninguém gosta de ficar atrás e a Sonia merece essa passadeira vermelha. Apareça!
    Emília

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  18. Emília, a realidade é bem mais estranha que a ficcção, por isso força!!!
    Até à sua incursão literária, aguardo pela da Hermínia.
    Bjnhos!!!
    P.S.: eu prometo limpar os pés antes da honra de calcar a passadeira!!! ;-)

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