Depois de jantar, arrumar a mesa e a cozinha e preparar tudo para ir à feira bem cedo na manhã seguinte, foi buscar a caixa onde guardava o papel e as canetas, acendeu a vela grande com cheiro a baunilha que tinha ao lado da cama e, apagando todas as luzes pelo caminho, colocou tudo em cima da mesa da cozinha. Ajeitou o xaile nos ombros, pôs uma manta sobre as pernas e começou a escrever…
Do meio da sua escrita rápida, debitada directamente do coração para o papel, conseguiu ouvir um rouxinol azul cantar. Olhou para a vela, que estava já mais de meia ardida e percebeu que já se aproximava a madrugada - estava na hora de terminar, senão não a conseguiria enviar a tempo.
Pensou em relê-la, mas desistiu rapidamente: entre a caligrafia apressada, os riscos sobre as ideias que não saíram bem à primeira e as manchas deixadas pelas muitas lágrimas que tinha chorado durante a escrita, não ia conseguir...
Abriu o envelope e, antes de lá colocar a enorme quantidade de folhas que havia preenchido com todo o conteúdo do seu coração, acrescentou mais umas linhas:
P.S.: Ainda bem que me conheces como ninguém e sabes o que quero dizer sem precisares de ler tudo direitinho, porque desta vez ficou mesmo muito mal…
Mas consegui um mensageiro à altura da quantidade de folhas que aqui vão: um unicórnio! Espero que gostes e que ele leve a mensagem direitinho.
O vendedor de balões da vila julga que eu os compro para o meu netinho…
Se calhar até já tenho algum, mas dessas coisas sabes tu melhor que eu – aí de cima consegues ver tudo, enquanto que eu, aqui em baixo, só vou sabendo alguns rumores e cada vez mais espaçados… Mas é bom não ter más notícias.
Se achares que me faz falta saber alguma coisa, manda o unicórnio de volta, por favor.
Bem, tenho que me despachar antes que a Lua se ponha e seja tarde demais.
Até sempre.
Dobrou as folhas, vincando-as bem para conseguir fechar o envelope, selou-o com um beijo apaixonado e uma última lágrima das muitas que lhe marejavam os olhos, amarrou-o ao fio do balão e, colocando a manta que tinha nas pernas sobre os ombros, saiu para o alpendre com o unicórnio na mão.
Sentiu-se como quando era miúda e lhe explicaram que os balões viajam até longe levados pelo vento depois de subirem até ao céu. Ela sabia que ele estava no Céu e que receberia mais esta mensagem, outra que contava o passar de mais um ano da sua vida desde que ele partira…
Ficou a ver o balão voar cada vez mais alto e, mesmo depois de o perder de vista, continuou parada a olhar o céu que, lentamente, perdia as últimas estrelas e, como um camaleão gigante, mudava de índigo para azul, anunciando o nascer do Sol.
Virou-se para Leste e, respirando fundo, iniciou mais um ano sem ele a seu lado, mas no seu coração. Para sempre...
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema "Post-Scriptum".
Que lindo.
ResponderEliminarHá um algo de tão místico que que nos obriga a refletir.
Quantas vezes me apetece fazer o mesmo para tentar que muitas das mágoas que encerro possam ser atenuadas.
Beijinho
Manuel:
ResponderEliminarObrigada pelas suas palavras...
É bom saber que consigo deixá-lo a pensar. :-)
Então faça, porque escrever é a nossa forma de exorcisar os fantasmas e escrever-lhes directamente é ainda melhor!
Bjnhos e uma boa semana!
Por entre muitas e brilhantes lições que podemos retirar do "Principezinho", lembro-me de uma que diz algo como:
ResponderEliminar"Se alguém ama uma flor da qual só exista um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para fazê-lo feliz quando as comtempla. ele pensa "Minha flor está lá, em algum lugar..."
Gostei muito :) Boa semana
Obrigada Natacha, tanto por teres gostado (e comentado), como pela referência ao "Principezinho" - é uma honra fazer lembrar algo do Antoine de Saint-Exupéry! :-)
ResponderEliminarBoa semana!
Beeeemmmm Sónia da Veiga,arrasaste! :)
ResponderEliminarMuito bonito, muito profundo. Penso que ao escreveres este texto, a tua imaginação também foi no balão!
Boa semana!
Obrigada Cláudio!!! :-D
ResponderEliminarEle há coisas que nos saem melhor, especialmente quando se lê o que as outras operárias já escreveram, se constata que saiu parecido com o que primeiro nos ocorreu e temos que repensar a coisa...
Obrigada, a sério. :-)
Bom resto de semana!
Que lindo!!!! Gostei tanto Sónia!:) Ternurento é o que me vem à cabeça:)
ResponderEliminarUm beijinho
Cláudia
Ainda bem que gostaste Cláudia (é tão estranho não te chamar Magnolia...)!
ResponderEliminarTernurento é bom, muito bom!!!
Beijinhos!
Olá..
ResponderEliminarVoltei a ler e gostei ainda mais do que da primeira vez..
Ternurento..
Com tempo, lerei a desta semana.. gosto de ler devagarinho, entrar na história e saborear as palavras..
Um beijinho :)
P.S. Já dá para comentar!
Obrigada Ametista!
ResponderEliminarAinda bem que já consegues comentar!!!
Beijinhos e lê com calma... ;-)