A Sofia adorava aquela sensação… A ausência de peso, a água fria a recobrir-lhe o corpo, o fato-de-banho justo ao corpo mas a permitir todos os seus movimentos, faziam-na sentir uma sereia! Em terra, era uma moça desastrada e desengonçada mas, dentro de água, movia-se com uma agilidade e fluidez fantásticas, como se fizesse parte do próprio mar.
Para ela, a melhor parte de ir à praia era ir à água, mergulhando e nadando fora de pé onde poucos se atreviam e ninguém a incomodava.
Gostava de ficar como que parada no meio da água, observando tudo e todos na areia, alternando com o horizonte para lá das rochas que protegiam aquela zona das correntes mais fortes. Ficava lá tempos infinitos, observando e, de quando em vez, mergulhava bem fundo para sentir aquela sensação mais uma vez…
Hoje estava mais um lindo dia de Verão e lá estava ela, a boiar ao longe, observando tudo e todos, nada mais que um ponto escuro nas águas que brilhavam intensamente sob a luz do Sol.
Pedro gostava muito de a observar, especialmente quando ela mergulhava… Ver o seu corpo deslizar por sobre a superfície da água como uma cobra marinha naquele seu fato-de-banho verde, as pernas longas que terminavam naqueles pés tão perfeitos, desaparecendo elegantemente, apenas para reaparecer com o seu rosto resplandecente e sôfrego de ar…
A primeira vez que a vira, ela estava a sair da água e enquanto sacudia o cabelo, ele apaixonou-se. Por coincidência, um dos rapazes com quem estava a jogar sueca conhecia-a e ela passara lá perto para responder a algo, mas a única coisa que ele conseguiu fazer foi olhar para os seus pés e pensar como eram o final perfeito para aquelas pernas de sereia…
Enquanto ela secava na toalha, ouviu alguém perguntar:
- Sofia, queres vir jogar sueca? Falta-nos um jogador!
Levantou a cabeça para ver com quem jogaria, pronta para recusar porque ainda queria ir outra vez à água, quando os seus olhos se cruzaram com os dele. Pareciam suplicar-lhe que aceitasse, por isso saiu-lhe um:
- ‘Tá bem! Já vou!
Pedro foi-lhe apresentado e ela cumprimentou-o com dois beijinhos. Ele corou de tal forma que pensou que ela iria sentir o calor nos lábios. Quando os seus olhos se cruzaram novamente com os dela, alegrou-se ao perceber que também ela corara um pouco.
Toda a gente sabe que a sueca é um jogo de surdos-mudos, mas poucos põem isso em prática… excepto aquele par. A Sofia e o Pedro não precisavam de falar, os sinais eram subtis e os seus olhares conversavam sobre mais que o jogo.
Ao fim de ganharem 4 vezes seguidas, os adversários desistiram e Sofia e Pedro decidiram ir juntos à água.
Mergulharam os dois de cabeça ao mesmo tempo, mas enquanto que o Pedro veio à superfície logo a seguir, a Sofia prosseguiu debaixo de água, tentando acalmar as suas ideias, o seu coração. Subiu para a superfície num volteio, emergindo virada para a areia, na direcção onde achava que ele ficara, apenas para perceber que ele estava já ali, pertinho dela, olhando-a nos olhos.
- Costumo ver-te a nadar, por isso já sabia que ias sair mais ou menos aqui. – o sorriso era agora confiante, apesar de o rubor teimar em aparecer.
- Então não te consigo surpreender… - dissera ela ligeiramente desiludida.
- Tens a vida inteira para isso.
Pela certeza no seu olhar ela percebeu que tinha mesmo.
Desde essa tarde que as suas vidas permaneceram unidas, por entre altos e baixos, mas sempre com conversas silenciosas e palavras cheias de significado.”
Pedro Nuno, o mais velho dos quatro netos de Sofia e Pedro, acabou de ler a história que já todos conheciam e sentou-se novamente à mesa.
Os aplausos do clã familiar ali reunido foram tanto para o jovem, que tão bem descrevera o início daquela família, como para o casal que a protagonizava e que celebrava agora as suas bodas de ouro.
- Avô, tens que fazer um discurso! – disse a sua neta Catarina, tão parecida com a avó…
Ele levantou-se, pigarreando.
- Mãe, não vale completar as frases do pai, OK?
Sofia sorriu e aquiesceu:
- Está bem, mas se ficarmos aqui até amanhã à espera que ele acabe, a culpa não é minha!
Pedro pigarreou mais alto, tentando sobrepôr-se ao barulho da risota geral. Ao fim de um pouco, e, considerando que estavam 13 pessoas naquela sala e as hipóteses de se conseguir silêncio absoluto eram extremamente reduzidas, lá começou a falar:
- A vossa mãe e avó deu-me a honra de compartilhar a sua vida comigo. Desde esse dia, nunca mais a larguei e, não sei bem como, ela ainda não se cansou de mim… - risos – Mas o facto é que eu ainda não descobri o que fiz de tão bom para merecer uma mulher como ela: que me compreende para lá das palavras, que adivinha os meus sentimentos quando ainda nem eu me apercebi deles, que me completa as frases, que me satisfaz plenamente em todos os aspectos…
- Informação a mais, pai!!! Passa essa à frente!
Após um acesso de tosse a seguir às gargalhadas, lá continuou:
- … que me ama com todos os meus defeitos e me melhora com as suas qualidades, que me abençoou com uma família linda e nunca me deixou desistir dos meus sonhos… Por tudo isto eu estou grato por aquele jogo de sueca e pela oportunidade que me deu de te conhecer. – baixou-se e segurou-lhe a mão com tanto cuidado e carinho que todos perceberam que não era só por causa das artroses – Amo-te Sofia.
Ela ergueu-se com algum esforço, colocando o seu peso numa só perna para aliviar a anca dorida e, com um sorriso iluminado pelo Amor, respondeu-lhe:
- E eu a ti Pedro.
Alguns anos mais tarde, Pedro Nuno leu a mesma história enquanto espalhavam as cinzas de ambos na água do mar daquela que era a praia deles, e seria, para sempre. Contudo ninguém chorava. Apenas olhavam o mar e os imaginavam ali nadando, olhos nos olhos …
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema "Alma Gémea".
Adorei esta história, romântica e com uma mensagem que não nos deixa indiferentes.
ResponderEliminarParabéns Sónia !
Obrigada Manuel! :-)
ResponderEliminarÉ tão bom quando Sua Excelência o Escritor me elogia...
Parabéns.
ResponderEliminarBem... agora é a minha vez de utilizar a expressão: "ternurenta". Esta história que criaste é mesmo muito enternecedora, e faz-nos pensar que maior parte daqueles que hoje são netos, quando chegarem a avós não terão para contar uma história assim.
ResponderEliminarUm beijinho, boa semana e escrita :)
Lindas palavras...Uma história muito sentida e envolvente.
ResponderEliminarAdorei.Um beijinho e os meus Parabéns pelo blogue que é sempre tão rico em palavras, sentimentos ...Tudo de bom.
Cirrus:
ResponderEliminarObrigada! :-)
Natacha:
ResponderEliminarPara mim alma gémea é felicidade e satisfação género gato deitado ao Sol, por isso "ternurenta" encaixa bem!
Que um dia a nossa descendência faça de nós lendas, é o que desejo!
Beijinhos, boa semana e continuação de boa escrita!
Dina:
ResponderEliminarObrigada pelo teu lindo comentário, não só à história, como ao blogue! És uma querida!!! :-)
Tudo de bom para ti/vocês também!
Boa semana!
Não seja má!
ResponderEliminarEu não sou escritor sou apenas, tal como a Sónia, um amante das palavras e que gosta de as repartir com quem as queira ler.
Eu quando elogio sinto aquilo que digo, quando não gosto, olho, leio e deixo o desejo de um bom fim de semana.
Aqui nunca o fiz, porque adoro sempre.
Uma maravilhosa e sorridente semana.
ResponderEliminarBeijinhos dos dois.
Manuel, olhe que eu não estava a ser má, apenas sincera!!! Gosto muito da maneira como escreve, já lho disse!
ResponderEliminarAgradeço os elogios sinceros que me faz, por isso não diminnua os meus, OK?
E obrigada por gostar sempre!!! ;-)
Dina: Obrigada e igualmente! :-)
ResponderEliminarbem escrita, aliás, como sempre, princesa.
ResponderEliminarGostei muito.
Abraço
Muito bonita esta história que nos fala de amor e de memórias, de Mar e de afectos. Ver um casal que atravessa gerações e gerações e se continua a amar com a mesma ternura e intensidade, é das coisas que mais me enche a alma. Um beijinho e boa semana!
ResponderEliminarLuís:
ResponderEliminarHá muito tempo que não recebia uma visita sua! ;-)
Obrigada pelos elogios!
Beijinhos!
Cláudio:
ResponderEliminarCom duas lamechices de seguida, tenho mesmo que arranjar inspiração nova para a desta semana! Mas a foto é tão fixe que não há-de ser difícil. Espero... :-S
Beijinhos para vocês os dois e boa semana!
P.S.: Diz lá se já não ficaste com vontade de marcar o restaurante para as vossas bodas. ;-P
Bonita a mensagem que demonstras numa história que poderia repetir-se em todas as famílias.. pena que se tenham perdido valores ao longo dos tempos e que esse sentimento que tentamos que perdure já não seja para toda a vida (salvo raras excepções)..
ResponderEliminarGostei muito :)
Um grande beijinho
Cheia de ternura a tua história. Bom seria se o mundo girasse em torno de amores que duram uma vida inteira.
ResponderEliminarFinalmente parece que consigo comentar os teus posts. Será? Vamos lá ver...
Abraço
Ametista:
ResponderEliminarTenho sempre esperança que estes e outros "bons" valores sejam novamente exultados.
Até lá...
Obrigada.
:-x
Ónix:
ResponderEliminarCheira-me que vou ficar conhecida como "SDaVeiga, a ternurenta"! ;-)
Acredito na força do Amor - o que por vezes falta é força para nos entregarmos a Ele...
Obrigada por teres tentado comentar mais uma vez.
:-x