Aqueles gritos horríveis ecoavam na calma noite de Lua Cheia...
Ela acordou assarapantada e, dum salto, começou a dirigir-se para o quarto dos miúdos. Apenas quando a sua mente acordou um pouco se apercebeu que não estava na sua velha casa e, ao ouvir mais um grito aterrador, compreendeu que era um gato assanhado e não uma criança...
Decidiu ir separar os gatos, pelo que vestiu o camisolão de lã de merino que vestia sempre que saía nas suas caminhadas nocturnas, calçou os mocassins de juta e, agarrando na lanterna perpétua, agitou-a enquanto mergulhava na noite escura e fria. Procurou a origem do som com a luz da lanterna e, por entre a agitação que se gerou nos arbustos, surgiu um par de olhos brilhantes como faróis.
Com uma naturalidade que não conseguiu explicar sequer a si própria mais tarde, pigarreou e disse:
- Anda para dentro gato. Está frio e eu quero ir dormir.
E nem sequer percebeu porque é que não ficou admirada quando o gato a seguiu para dentro de casa com o maior à vontade do mundo, enquanto o outro fugia em direcção à mata.
No dia seguinte acordou e pensou que tudo não passara dum sonho.
- Se calhar já estou sozinha há tempo demais e isto foi a maneira que o meu subconsciente teve de me dizer que devia arranjar um gato. - pensou ela enquanto fitava o raio de luz que entrava pela fresta da portada, a anunciar um radioso dia de Sol lá fora.
Decidiu aproveitar o belo dia para ir recolher flores silvestres para reabastecer o seu stock de pigmentos naturais mas, ao tentar levantar-se, sentiu um peso no cobertor atrás de si. Virou-se e viu um gato preto escanzelado e com zonas de pêlo rarefeito e empastado por todo o corpo, deitado em cima da sua linda mas já não imaculada manta de patchwork.
- Credo gato, na minha mantinha nova não! Sai já daí.
O miado rouco e baixo que quase não ouviu fez os seus instintos de curandeira disparar e, em menos de nada, o "Gato" (agora nome oficial e não apenas designação generalista) estava a ser lavado com um pano com água de rosas e suturado com a agulha mais fina que ela tinha sem sequer se mexer.
- Agora é que me vão mesmo chamar "bruxa" - até já tenho o gato preto da praxe!
Quando ela se mudou para a aldeia, ninguém estranhou... Voltara à terra para recuperar a casa dos avós, dar uso a uns terrenos que estavam "de monte" e "produzir alguma coisinha para cortar na despesa, porque a reforma não dá para tudo", explicara ela a quem perguntava a razão do seu regresso, e todos ficavam esclarecidos o suficiente para não levantarem mais questões.
A sua inserção na comunidade fora muito facilitada pelo facto de ela partilhar os seus chás milagrosos com todos, especialmente com o Presidente da Junta, diminuíndo-lhe as crises de estômago e de pedra nos rins.
Só que, como fazia coisas "fora do normal", incluindo andar sozinha pelo monte à noite a apanhar ervas e cogumelos e "conversar" com os animais, incluindo os selvagens, muitos já a apelidavam de "bruxa".
Por vezes recebia visitas dos seus "amigos aluados" (como lhes chamavam as más línguas), que deixavam as crianças andar nuas no ribeiro, cantavam e dançavam à volta da fogueira e tinham umas ideias "revolucionárias" acerca do uso de adubos e pesticidas que teimavam em partilhar com os habitantes - que, apesar da relutância inicial, aos poucos lá se iam convertendo (quanto mais não fosse por verem os resultados que ela ia tendo nos seus "canteiros"). Tudo isto só contribuía para adensar a aura de mistério à sua volta.
Numa daquelas "reuniões" espontâneas que a população tinha no café a seguir à missa de Domingo, ela explicou que se tratava duma "comunidade em transição" e, apesar de ter explicado de forma muito acessível os princípios da transição e da permacultura, eles só foram verdadeiramente aceites quando os Bombeiros Voluntários e a patrulha da GNR declararem as suas incursões no monte a recolher tojo (para a meia dúzia de cabras e ovelhas que ela já tinha num abrigo escavado na terra) "providenciais, pois tinham permitido que o incêndio mais recente não se alastrasse muito e os homens tivessem onde o travar".
Todas estas pequenas coisas lhe valeram o respeito dos aldeãos, especialmente dos anciãos que se lembravam da fama de curandeira da sua avó e de como o seu avô cuidava bem dos seus campos e ajudava os outros sempre que podia, e já não havia parto que não fosse realizado na sua presença (humano ou animal) ou doente que não beneficiasse dos seus remédios caseiros e naturais antes de procurar médico ou farmacêutico.
E mesmo quando ela acolhera um lobo ferido por uns pastores da povoação vizinha que teimavam que era aquele animal o responsável pela morte dos seus rebanhos, eles não duvidaram que ela sabia o que estava a fazer... Mais tarde, quando se provou que a culpa era duma matilha de cães doentes abandonados por uns caçadores que haviam passado nas redondezas há tempos, o Presidente da Junta até aceitou fazer parte de um programa de preservação dos lobos e todos apoiaram a ideia.
Todos os Domingos à tarde as mulheres se reuniam na casa dela para o "chá das 5", onde conversavam sobre tudo e mais alguma coisa, trocavam receitas e revistas de tricôt e comentavam as novidades mais frescas dos arrebaldes.
A primeira reunião desde a chegada do "Gato" acabou por se centrar nele e em como ela era agora uma bruxa oficial...
- Mas das boas, das brancas, porque a Sãozinha é uma mulher boa.
- Então o gato havia de ser branco!
- Nã! Assim é que tem piada. O meu Quim é que se vai rir à fartasana: ele passa a vida a dizer que, um dia destes, ainda nos vai ver a todas a sair daqui montadas em vassouras, e agora que tem gato preto e tudo é que vai ser!
Ela não sabia se fora magia ou não, mas o facto é que voltara a ter uma família e companhia naquela casa e isso chegava-lhe para ser feliz.
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias, sob o tema "Uma bruxa diferente".
Gostei bastante. O "Gato" é fantástico :))
ResponderEliminarBoa semana ;)
Adorei esta Bruxa/Fada absolutamente deliciosa!
ResponderEliminarDeixou um gostinho a "quero mais"!!!!
Muitos parabéns!
Bom Fim de Semana
Moon Dreamer
Obrigada Natacha! :-D
ResponderEliminarE o "Gato" também agradece! ;-)
Boa semana para ti também!
Moon Dreamer: Obrigada!
ResponderEliminarA Sãozinha agradece e promete voltar a aparecer mal a coisa se proporcione. ;-)
Boa semana.
Pelo que sei és uma mulher ligada às ciências....mas escreves tão bem que quase dúvido!! :)))
ResponderEliminarBeijinhos
Butterfly:
ResponderEliminarObrigada pelo elogio... acho eu! ;-P
Tirei o curso no ICBAS, que foi criado pelo Professor Doutor Abel Salazar e o lema dele era: "Um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe."
Eu sempre gostei de pensar assim, mas confesso que, desde a altura da faculdade, que ler essa frase quase todos os dias me marcou mais ainda! Por isso acabaste de me fazer o melhor elogio possível! :-D
Boa semana!
Mais um texto escrito por alguém cuja vista alcança para lá da linha do horizonte. Consegues fundir vários temas e aspectos e torná-los gritos de alerta para quem lê… Isso também é magia!
ResponderEliminarObrigada Cláudio!
ResponderEliminarApesar da ideia ser essa, ainda acho que sai subliminar demais... Tenho que continuar a escrever para melhorar isso.
"Magia" não lhe chamaria, mas que o feitiço da escrita é cada vez mais potente e me compele a escrever cada vez mais, lá isso...
Mais uma vez obrigada e boa semana!
Ah, e boa sorte a queimar as calorias todas das queijadas e do bolo de dia dos namorados da Dina - só a foto já me fez ganhar umas quantas gramas!!! :-D
Que posso acrescentar ao que já disseram!
ResponderEliminarMuito interessante e com, como esperava, uma mensagem para reflectir.
Sabe que pensei que a Sãozinha dava um beijo no gatinho e ele virada um garboso príncipe?
Adorei.
Fartámo-nos de rir lá em casa com o «boa sorte a queimar as calorias»! Podes crer, não é fácil e eu que há poucos anos atrás nem apreciava doces…
ResponderEliminarContinuação de boa semana e de boa escrita! Beijinhos meus e da Dina!
Ó Manuel, olhe que eu ainda pensei nisso! ;-P
ResponderEliminarMuito obrigada pelo seu apreço! :-)
Lá está Claúdio, esta foi um pouquinho subliminar, mas vocês são inteligentes e apanharam-na! ;-)
ResponderEliminarBeijinhos aos dois e bom fim-de-semana ('tá quase...). :-)
Mesmo que as mensagens não cheguem ao consciente de toda a gente que as lê, não é grave.Existe o subconsciente e esse detecta tudo.Mais cedo ou mais tarde fará uso dessa informação. Creio eu que sou um optimista ;)
ResponderEliminarContinua a escrever porque a tua escrita nos toca com sabedoria e possui um humor muito inteligente.Eu gosto.
Bom final de semana!
Como diria um escritor que há-de ser famoso que eu conheço "E como posso resistir a comentários assim?!!!, tenho mesmo de escrever!" ;-)
ResponderEliminarObrigada Cláudio, a sério!
A ver se o P.S. daqui também sai - e eu que até gosto tanto deles...
Bom fim-de-semana!
Lá está o teu inteligente sentido de humor. Muito British! :)
ResponderEliminarAfinal saiu-nos o P.S. ;)
E que ricos PSs, ´n'é? ;-)
ResponderEliminarMas explica lá essa do humor britânico, se fazes o favor, que passou-me ao lado... :-/