sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"Enredos" - Mãe

Reparei nela assim que entrou na sala de espera.
Foi o som que primeiro me chamou a atenção, o estalar ritmado e seguro de saltos altos na cerâmica que cobria o chão.
Ainda hoje, quando penso nisso, não consigo perceber como a ouvi chegar. Ignorando completamente a conversa dela e do advogado, apenas me concentrei no som dos seus passos... os passos da minha mãe!

Eu sempre soube que era adoptada, desde pequenina. O Zé e a Gina sempre fizeram questão que eu soubesse. Isso em nada mudou a minha relação com eles e, acima de tudo, a deles comigo; amavam-me de modo incondicional, ajudaram-me a crescer forte e segura e a sorrir muito.
Mesmo quando, há cerca de um ano, a minha mãe (a única que sempre conheci e que amei como tal) perdeu a batalha contra um cancro no colo do útero, na nossa despedida disse, com um sorriso nos lábios:
- Um cancro no útero… Ironia das ironias para quem nunca concebeu, não é?!? Ó coisinha inútil!!!
O meu pai ficou tão abalado que não saiu do quarto durante uma semana e quase nada comia do que eu lhe levava.
O seu cabelo, antes com algumas madeixas loiras, ficou completamente alvo... Os seus olhos azuis perderam o brilho que lhe conhecera enquanto a minha mãe era viva.

A minha mãe, a minha verdadeira mãe! Não esta que me abandonou com 2 dias de idade, que não se esforçou por me ensinar a ler, que não curou as feridas que tantas vezes afligiam os meus joelhos, que não ajudou a minimizar as feridas no coração provocadas pelos rapazes incautos que não estavam preparados para uma rapariga tão complicada como eu… Não esta que, em vez de ter um ar angelical, com olhos castanhos doces e profundos, cheios de amor para dar como a minha verdadeira mãe, dirigiu um olhar frio à recepcionista enquanto o advogado os anunciava.

Haviam passado meses desde que o meu pai terminara o seu luto privado e eu tivera, finalmente, um ombro onde chorar e soltar toda a tristeza avassaladora que me consumia, quando, a seguir a um jantar normal de um dia normal da nossa nova rotina sem a mãe, ele se sentoue ao meu lado no sofá e disse, como se nada fosse:
- Sei que a tua mãe te vai fazer uma falta imensa, como a mim, se calhar até mais… Não quero que fiques sozinha caso me aconteça algo, por isso quero que conheças a tua mãe biológica.
Senti-me como se tivesse levado um soco na barriga! O livro que eu estava a ler caiu-me do colo e, ao levantar a cabeça incrédula, vi o meu reflexo no negro vidro da televisão desligada, uma cara pálida e assombrada, o cabelo curto desarranjado a completar o visual de “aparição fantasmagórica”, tão sem cor que nem o ruivo recém-pintado do cabelo se notava…
“Como raios é que ele se teria lembrado daquilo?!? Querer-se-ia livrar de mim?!? Estava doido com as saudades?!?” a minha cabeça começava a andar à roda, até que ele começou a conversar acerca do seu medo em me deixar só, que eu me sentisse desamparada como ele ficara sem ela, sem uma amarra à vida como eu tinha sido a dele…
Abraçámo-nos e conversámos muito, como havia tempo não fazíamos, desde a noite da comunicação do diagnóstico da mãe.

Ela deslocou-se rigidamente para a cadeira, logo seguida do advogado fuinha com quem falei nas muitas reuniões que antecederam este encontro, só possível após assinatura do contrato onde, a par da impossibilidade de conhecer a identidade do meu pai biológico, eu assegurara a ausência de desejo de “ajuda monetária ou de outra índole, incluído material biológico”. Só pude conhecer a mulher que me abandonara há 20 anos atrás na maternidade,  depois de lhe garantir que aceitava a sua recusa em ceder sequer um pouco do seu sangue caso eu precisasse de uma transfusão, tal como se negara a dar-me do seu leite na maternidade. A enfermeira percebera logo o problema e, quando ela desapareceu, saindo pela calada e deixando-me a chorar por comida, deu-me o biberão enquanto falava com o marido para ficar comigo, para me adoptarem, como pouco tempo mais tarde fizeram...

Era assim a minha mãe, um anjo forte e caridoso, nada como esta “senhora” que, enfiada no seu “tailleur” azul-marinho e com mala e sapatos lustrosos a condizer, só me fazia lembrar a mãe snob e arrogante da série Gilmore Girls, a Emily Gilmore, com penteado igual e tudo! Eu que, durante anos, fôra a Rory e a minha mãe a Lorelai, numa relação perfeitamente fantástica e invejável, tal como a das heroínas da série.

A recepcionista levantou-se e levou-os para dentro da sala de reuniões, aquela que eu já conhecia tão bem, dos livros na estante de mogno à vista para o rio, passando pela mancha no tecto que eu gostava de pensar ser dalguma festa desenfreada fora de horas e não devida a qualquer outra coisa monótona, aborrecida e previsível…
- Sofia, pode entrar. – disse a recepcionista, abrindo a porta de tal maneira que todos me conseguiam ver ainda estava eu a compor-me para não causar má impressão. “Obrigadinha”, pensei eu ao dar-me conta que já não valia a pena.
Ela, a mulher que me colocou no mundo, compôs discretamente o cabelo e contraiu ainda mais os lábios, já de si finos, enquanto eu me sentava, evitando olhar para ela.

- Vamos então começar. – anunciou a minha advogada – Matilde, esta é Sofia Abreu. Sofia, esta é Matilde de Costa e Sá, tua mãe biológica.

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Texto escrito para a Fábrica de Histórias
(
http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/)

2 comentários:

  1. Bonita história, princesa. Como sempre, sai uma bela imaginação.
    Abraço.

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  2. Luís:
    Muito obrigada! :)
    Um elogio vindo de quem lê muitos livros, mesmo que a um euro, é óptimo!!! ;D

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