Quando o director da clínica deixou bem claro que um deles tinha que se voluntariar para treinar a equipa da nova clínica a mais de 300 quilómetros de distância, o estômago dele dera um nó tal que se arrependeu mais uma vez de não ter almoçado antes daquela malfadada reunião.
Ainda estava a absorver a força do golpe de ter que se separar dela sem ainda sequer lhe ter dito que a amava, a pensar se valeria a pena fazê-lo nestas circunstâncias, quando a ouviu dizer:
- Eu vou. Não há problema algum. Eu até agradeço a mudança de ares!
Em duas semanas, ela partira para a nova cidade, disposta a deixar a Matilde de antigamente para trás. Refugiando-se no muito trabalho que tinha, aproveitara para se afastar até do Alberto, para deixar morrer a amizade, a cumplicidade…
Estava tudo programado: quatro meses para pôr a equipa a funcionar, dois meses de férias acumuladas, seis meses para voltar à vida normal.
Faltavam duas semanas… Abençoado Inverno que lhe permitia usar roupa suficiente para disfarçar a barriga, mas as hormonas… Malditas pelo condão que tinham de a pôr a sonhar com o bebé que aí vinha, em tê-lo nos braços, em amamentá-lo… “Não! É que nem pensar!”, pensava quando o desejo de liberdade ganhava o desafio mental. “Não fui feita para ser mãe! Quero a minha vidinha de volta!”
Quem a mandara facilitar?!? Quem mandara pensar que cinco preservativos chegariam para uma noite com aquele Adónis atlético, cheio de genica, resistência e imaginação?!?
Já só faltavam duas semanas… Sabia-o porque andava a fazer as suas próprias ecografias desde o início – alguma vantagem convinha ter em ser ginecologista/obstetra -, mas o bebé mexia-se cada vez menos e precisava mesmo de fazer um registo para avaliar melhor a situação e, ali na clínica, isso era impossível.
Conduziu cem quilómetros até à maternidade mais próxima (e sem pessoas conhecidas) e, como começara a sentir uma dor forte no baixo ventre, decidiu ir directamente às urgências.
Fora levada quase de imediato para a sala de cirurgia e, três horas e uma cesariana de emergência depois, estava com a sua filha nos braços.
Uma filha… Mas o que fazer? Não podia ficar com ela… Nunca seria uma boa mãe! Tinha que se decidir a deixá-la de uma vez.
As enfermeiras tinham estranhado ela não querer amamentar nem cuidar dela no primeiro dia, mas a desculpa das dores da cicatriz, da fraqueza da perda de sangue e da angústia da remoção forçada do útero, tinha sido o suficiente para as acalmar. Mas hoje a Gina, a enfermeira dos grandes olhos castanhos, olhava-a duma forma estranha, fazendo-a sentir-se culpada…
Enquanto saía sorrateiramente da maternidade, agarrada à barriga, com um passo lento e dolorido a caminho do motel que vira na saída da auto-estrada, munida dos medicamentos que roubara na estação das enfermeiras, pensava: “Será que alguma vez voltarei a vê-la?”
Entrou na sala de espera cheia de medo, mas o advogado não se calava:
- Não fale directamente com ela. Evite olhá-la nos olhos. Não responda a nada sem me consultar primeiro. Não…
Dizia que sim, mas já não conseguia ouvir as instruções dele.
O Alberto exigira que ela assinasse um contrato qualquer e pusera este advogado no caso, mas ela não percebia muito bem porquê.
Sabia que ele nunca lhe perdoara ela não lhe ter contado da gravidez, de ter abandonado a menina sem lhe dar hipótese de casar com ela, de ser o marido e o pai que ambas precisavam… Mas isto parecia um castigo… para ambas!
Estava tão concentrada nos seus pensamentos que nem reparou na recepcionista enquanto o advogado os anunciava. Não via nada à sua volta… Só se queria sentar para não notarem que toda ela tremia…
Desde que haviam casado que se tornara uma senhora respeitável, cada vez mais embrenhada no seu trabalho e, fora dele, um modelo exemplar de rectidão e bons costumes, nada como era antes.
O seu fogo estava lá, mas apenas Alberto o conhecia e, mesmo ele, ultimamente já raramente o via.
Vestira-se do mesmo modo que fazia quando dava uma palestra num congresso - de modo profissional e neutro -, mas sentia-se tão fora do seu ambiente, mais nervosa do que se estivesse frente ao júri do Nobel…
A recepcionista levantou-se e, com um gesto, conduziu-os para dentro da sala de reuniões e, mal a Mariana, advogada da menina e, por coincidência, sua colega de aeróbica no ginásio, acabara de os cumprimentar, a porta abriu-se outra vez.
- Sofia, pode entrar. – disse a recepcionista.
Uma jovem bonita, alta e magra, de curto cabelo ruivo, ajeitava-se enquanto caminhava para a sala.
“É ela, é a minha filha!”, pensou ela enquanto, nervosamente, arranjava o cabelo. A vontade de falar era muita, mas o toque discreto do advogado fê-la lembrar-se que não podia falar e forçou-se a fechar a boca enquanto, triste, a via sentar-se, evitando olhar para ela.
- Vamos então começar. – anunciou a advogada – Matilde, esta é Sofia Abreu. Sofia, esta é Matilde de Costa e Sá, tua mãe biológica.
- E só quando o advogado foi tirar o café que a advogada deitara sem querer nas calças dele, é que tu e a mamã falaram e se entenderam, não foi avó?
- Sim querida. Já sabes a nossa história de cor e salteado, porque é que insistes que ta conte sempre que cá vens de visita? - perguntou Matilde, olhando fundo nos grandes olhos castanhos da sua neta.
- Porque ADORO finais felizes!!!
A menina afastou-se para junto do seu irmãozinho e do avô. Alberto adorava brincar com ele aos índios e cowboys enquanto a Gina se distraía com as histórias da avó. Mas todas com finais felizes!
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias
(http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/)
Sequela de "O dia em que direi amo-te", escrito por Stroby e complemento de "Mãe"
Não há duvida que, a cara amiga, gosta de finais felizes e consegue-os.
ResponderEliminarBonita história com uma bela mensagem de amor e esperança.
Só não percebo esse "Adónis atlético" que desconhece as suas capacidades e não se previne como mandam as regras.
Gente moderna!!
Parabéns.
Manuel:
ResponderEliminarMuito obrigada pelos seus elogios!
Vindos de quem vêm, ainda sabem melhor!!!
E já vi que isto dos finais felizes (ou, no caso do seu, à gargalhada!) se pega!!! ;D
Quanto ao "Adónis", devia andar com a caixa inteira atrás, mas enfim... Ao menos só houve uma consequência "feliz" e nada de grave... :S
Linda história, como sempre princesa.
ResponderEliminarAbraço.
Luís:
ResponderEliminarObrigada! :)
Confesso que não tive coragem de pegar na sua - só ía estragar...
Jinhos
Nunca me estraga nada, princesa. Mas fez bem...porque já não concluí. Deixei de comparticipar na "Fábrica". Queriam que eu alterasse a introdução. Eles tinham razão, as regras eram claras. Eu é que as violei. Mas eu sou um bocado selvagem a escrever. Gosto de fazer o que me apetece...e não alterei nada. Um texto que eu escreva, para mim, é um filho.
ResponderEliminarPor isso fez muito bem em não ter pegado na minha história...
Abraço.
Luís:
ResponderEliminarPercebo o seu gesto, mas acho, sinceramente, que quem perde é a Fábrica!
Tudo bem que houve ali um "dobrar" de regras jeitoso, mas mais valia não aceitarem que pedir a um ESCRITOR para alterar um escrito tão bonito e apaixonado.
Já vi que até o cartão de operário já entregou...
É pena... :(
Jinhos