domingo, 2 de maio de 2010

A culpa é da "cultura ocidental"

Tive uma epifania!!!

Já sei porque é que as coisas estão tão mal a nível económico, social e ambiental e porque é que só vão piorar ainda mais (e eu nem sequer sou pessimista!!!): a culpa é da "cultura ocidental"!!!

"E que parte da nossa magnífica, esplendorosa e grandiosa cultura é que esta gaja vai criticar agora?", perguntam vocês preparando já a ponta dos dedos para o comentário necessário para meter juízo nesta minha cabeça!

A falta de respeito, o completo desprezo para com o conhecimento inerente à experiência de vida dos mais velhos e, acima de tudo, a completa ignorância relativamente ao que se passou, tornando, por conseguinte, a cometer os mesmos erros e ostracizando quem pensa em coisas novas, como séculos atrás se fez com quem dizia que a Terra era redonda!!!

"Que raio é que ela quer dizer com isto tudo?"
Eu passo a explicar...

Há algumas gerações atrás (não muitas mas, infelizmente, há suficientes para fazer mossa!), começou-se a desprezar (ainda mais) os mais velhos, a ignorar as lições de vida deles, a enfiá-los em lares (com sorte), porque a vida começou a ser confusa e ninguém tem pachorra p'ra velhos.
Enquanto eles se íam safando sozinhos, não havia grande stress mas, a partir do momento em que começavam a exigir atenção, toca a enfiá-los num canto e a tomar a casa como nossa.

Ora toda a gente sabe que os filhos aprendem tudo com os pais e, se os vêem a desprezar os avós, irão fazer-lhes o mesmo, só que um degrau acima na escada porque "quem vem a seguir faz sempre o melhor pior e o pior melhor"!!! [frase inventada por mim mesmo agora, mas até podia ser um provérbio antiquíssimo porque está cheio de verdade... infelizmente!!!]

E toda a gente sabe que, se não se respeita a família, ou melhor, se não se aprende a respeitar a família e, em especial, os membros mais velhos de um clã familiar, então não se respeita ninguém!!!

Então como é que se pode esperar que o Governo respeite os cidadãos, os alunos respeitem os professores, os clientes respeitem os trabalhadores das lojas, o cidadão respeite a Polícia, etc., etc., etc., se nunca foram ensinados a respeitar os mais velhos, a sua própria família?!?

Grande revelação, n'é?!?

Em tudo quanto é povo dito "primitivo", os velhos são "anciãos", fazem parte do conselho, voz activa na vida da comunidade, fonte de sabedoria, histórias e estórias.
Esses mesmos povos primitivos, como o James Cameron mostrou tão bem no "Avatar" (mas passou completamente ao lado da maior parte das pessoas, especialmente a parte de os soldados voltarem para o seu mundo a morrer onde já não há verde - é o nosso futuro, só que não há planeta nenhum para onde possamos ir... a não ser talvez Plutão, mas como foi despromovido, nem esse...), são "civilizados" (e "sifilizados" também, como disse a/o outra/o) e nós só perdemos com isso, ignorando a sua sapiência de séculos e séculos e continuando crentes que um punhado de metal, pedras preciosas ou petróleo é mais importante que o equilíbrio dos ecossistemas, que a Vida!!!

Será que não temos realmente nada a aprender com povos cujo modo de vida lhes traz subsistência q.b. e, simultaneamente, uma comunhão fantástica com a Natureza?
Será que não temos realmente que respeitar a vivência dos mais velhos e dar valor à sua opinião?

Quem respondeu "Não, claro que não! O que é que eles sabem melhor que nós, os mais frescos de cabeça, mais evoluídos e com mais conhecimento?" ou algo dentro do género, mude de blog e nunca mais cá volte porque corre o risco de vir a ser insultado forte e feio num futuro muito próximo porque eu sei que a culpa disto estar a ir p'ró brejo é sua!!!
SUMA-SE!!!

Quem respondeu qualquer outra coisa, desde "Sim, há algumas coisas que podemos aprender..." a "Claro que esse conhecimento deve ser valorizado!" (e não só porque já cai nessa faixa etária!!!) continue a ler.
E pode cá voltar mais vezes, que não será barrada a sua entrada por um daqueles seguranças enormes das discotecas (ou, à falta de dinheiro para tal, por um dos meus primos que cravarei para o efeito)!

É óbvio que todas as experiências têm valor e há sempre algo que pode ser aprendido com as gerações anteriores, com os povos "primitivos", mas também com os mais novos!

"Agora é que ela se passou de vez!!! E até estava a fazer algum sentido...", desesperam vocês...
Vá, não abanem tanto a cabeça que eu já explico isto também...

Com o aumento do horário de trabalho, com os centros comerciais que roubam fins-de-semana e feriados às famílias dos trabalhadores, com o aumento da idade de acesso à reforma e diminuição do seu valor, com o parco Abono de Família, com a ausência de furos e as actividades escolares até ao fim do dia, com tudo a impedir uma família de ter tempo para ser uma família, para os avós darem apoio (com conhecimento, tempo e até dinheiro) a filhos e netos, para as crianças se divertirem, aprenderem a interagir (que não à porra e à maça) e gastarem energias antes de irem para casa em vez de desgastarem os pais ao máximo (já gastos do emprego, do trânsito, da falta de respeito do vizinho do lado...), com tudo isto, perdemos o que os mais novos nos podem ensinar: a ver o mundo de modo simples e directo, relativizando tudo e dando importância ao que é verdadeiramente mais importante - a família!

Para uma criança, o mais importante é o pai e/ou a mãe brincar/em com ele, seja ou não com o brinquedo que viu na TV e que não parou de pedir incessantemente durante os últimos tempos.
Basta pensar que, se brincássemos mais com eles, eles não veriam tanta televisão, não veriam tanta publicidade (muitas vezes desadequada) e não quereriam tanta coisa.
E, se nós não fossemos tão materialistas, eles também não o seriam e não andariam a pedir tudo e mais alguma coisa em vez de se contentarem com um passeio de bicicleta ou um piquenique em família!!!
Isto se tivermos tempo para isso, claro!!!

Por isso é que eu digo que a culpa é da "cultura ocidental", da cultura do stress, do relógio digital com segundos, do capitalismo e do materialismo, do "comprar para mostrar que tem", dos lares para idosos como ecoponto para reciclagem de carbono, do desrespeito aos professores e educadores, aos pais e amigos, ao nosso concidadão, seja ele da mesma raça, credo, género ou preferência sexual (ou não), das punhaladas nas costas, do não suportar ver alguém feliz sem ter vontade de lhe lixar a vida e lhe tirar o sorriso dos lábios, do "é mais fácil e melhor para mim, que se lixem os outros", do "o aquecimento global não me preocupa porque, nessa altura, já estarei morto", etc., etc., etc.!!!

No livro "Seja ecológico, escolha biológico" da Sheherazade Goldsmith, li algo que me abriu os olhos para o facto de não irmos mudar nada em tempo útil para a minha família: "Os Iroqueses da América do Norte exigiam que os mais velhos só tomassem decisões depois de terem considerado o impacto que estas teriam na sétima geração seguinte."
Qualquer decisão tomada pelos actuais governos é baseada na possibilidade de re-eleição (ou já não), sem considerar sequer o impacto que tem na geração actual, quanto mais nas 7 adiante, por isso não há esperança de que as coisas mudem em tempo útil.
As espirais de acontecimentos económicos, sociais e ambientais estão em pleno turbilhão e o máximo que poderemos fazer é minimizar o impacto que terão, mais nada.

E a culpa é de quem não ouve os mais velhos, não se inspira nos mais novos, não respeita a individualidade e sapiência dos outros, lhes tenta impingir a sua "civilização", a sua "moral" e relega para último plano o aprender com diferentes pontos de vista e experiências de vida.

É nestas alturas que, tal como quando se fala nos barcos negreiros da altura dos Descobrimentos, tenho vergonha de ser "ocidental", de ser "civilizada"... :(

6 comentários:

  1. Tudo certíssimo, Sónia. Cabeça que pensa anda à frente do tempo, digo eu. Mas não deixo de ficar preocupado, a menina está a ficar uma "velha" precoce. Estes pensamentos são para um velhote como eu. Estou a ficar desassossegado com Vocemecê...
    Abraço.

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  2. Luís:

    Não sou eu que 'tou a ficar velha precocemente, é o mundo que 'tá a descambar tão rápido que, se não abrimos os olhos agora, quando as cãs forem mais que os cabelo coloridos já será tarde...

    Além de que, por muito que a idade deva ser respeitada, não é por não ser cinquentona (como alguém, que não vou dizer o nome mas sabe bem quem é, julgava!!!) que não direi uma ou duas coisinhas de jeito! ;)

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  3. Como a compreendo, linha a linha, e como sinto esse vibrar de revolta contra as quebras de valores e o amorfismo que tomou conta desta sociedade, que se diz civilizada, mas que dia a dia nos vai atirando, mais e mais, para um abismo que todos sabem mas que poucos querem ver.
    Na realidade, esses primitivos são um verdadeiro paradigma que, infelizmente, as mentes consumistas de hoje não sabem seguir.
    Posso voltar ao seu Blogue, porque bato palmas às suas palavras e porque sempre tenho lutado contra o inconformismo e as perdas de valores.
    A culpa, talvez seja como diz, da “cultura ocidental” mas não só.
    Continue, minha amiga, a dar a todos estas lições de esperança.

    Essa (sua) epifania foi, na realidade, uma grande aparição e um motivo para este despertar de consciências.

    A propósito, tenho que ver o Avatar, pois devo ser o único que ainda o não viu.

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  4. Manuel:

    Às vezes sinto-me perdida...

    Parece que mais ninguém vê o que se passa à nossa volta e somos poucos os que tomam consciência da situação, por muitas notícias que corram por aí ou por muita polémica que exista nos média!!!

    É desesperante e, se realmente estes meus escritos (epifânicos, iluminados ou não), servirem para acordar uma ou duas pessoas, já fico satisfeita!!!
    Não que eu seja o Buda (os quilos ainda não são assim tantos!!!), mas se, ao usar um pouco do meu tempo para pensar um bocadinho nas coisas, conseguir fazer alguém que não tem tempo nem para se coçar aperceber-se d'algo, já sou um mulher feliz!!!

    P.S.: E, se fôr sensível à injustiça e impotência perante a burrice do ser humano como eu, veja o "Avatar" com um lenço ao lado (de pano, que é mais ecológico, ou então de papel, mas reciclado).
    Na altura do maior acto de estupidez de todo o filme, chorei como uma Madalena, arrependida dos actos dos outros!!!
    É lindo, mas fez-me perceber muito bem as coisas do ponto de vista dos povos indígenas, especialmente na Amazónia, melhor termo de comparação, a meu ver, com o planeta do filme!!!
    Acho que não foi à toa que o James Cameron chamou Na'vi aos indígenas - faz mesmo lembrar os Tupi...

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  5. Ótimo texto!

    O mais triste de tudo é que o ser humano está de fato... Perdendo o respeito por tudo aquilo que poderia ensiná-lo a fazer desse mundo um lugar melhor. O desrespeito para com os mais velho e essa empáfia irritante dos mais novos em achar que sabem tudo, está estragando a vida das pessoas. A grande maioria da população mundial não está nem aí para os fundamentais detalhes dessa vida, ou seja, perderam de vez o respeito pelas coisas. Só querem saber de pisar nos outros e fazer maldades a todo instante. triste, muito triste. fazer maldades com uma criança? Um idoso ou idosa? Que absurdo é isso. Por isso que eu digo... Às vezes tenho muito nojo dessa sociedade nojenta que comanda o mundo. E será que isso muda? Talvez até pudesse, mas será que o mundo quer ser mudado? Essa é uma pergunta que me faço todos os dias ao acordar e ir para a Faculdade. Que mundo é esse? Vai saber... Só sei que não é o que eu quero e desejo.

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  6. Rafa/Brandon:
    Obrigada pelo elogio.
    Só é pena que exista matéria para se escrever sobre estas coisas...

    Às vezes também me pergunto se as pessoas quereriam mudar se fossem capazes...

    Cada vez mais as pessoas se sentem sem poder de mudar a sua vida e, por isso, escolhem tornar a dos outros miserável, só para se sentirem importantes, poderosas, capazes!!!

    Seja onde for, há sempre alguém com vontade de lixar alguém, mesmo que não ganhe absolutamente nada com isso, só pelo sentimento de poder que isso lhe dá!

    É triste e dá mesmo vontade de nos retirarmos para uma ilha deserta e viver longe de tudo e de todos...

    O único problema é que ilha será, eventualmente, inundada pelo subir das águas, a orla costeira afectada por tempestades cada vez mais fortes e a fauna e a flora afectadas pela subida das temperaturas, porque tudo é global e não podemos viver no mundo sem ser afectados pelo bater das asas duma borboleta (ou ausência dele) do outro lado do planeta...

    O ser humano tem dificuldade em perceber que ninguém é uma ilha e que ninguém consegue viver sem interagir com outras pessoas e, se não fizerem o Bem, alguém lhes fará ainda pior do que eles fazem aos outros...

    Sei que o Karma pode demorar gerações a funcionar, mas Deus é grande e a justiça divina tarda, mas chega...

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