domingo, 11 de abril de 2010

"Começar de novo"

Há anos que, após uma semana cheia de trabalho, se cumpria a rotina: os amigos punham a conversa em dia com um copo de uísque na mão e ela, com a desculpa de lhes levar a sua famosa bôla de carne, aproveitava para se pôr a par dos negócios e novidades que eles comentavam entre si. “E ainda dizem mal das mulheres! Se ouvissem estes dois…”, pensava ela sempre que saía da sala.
Nada a fazia prever a reviravolta que a sua vida ia levar nesse fim de tarde…

- Ó pá, mas ainda és tão novo!!! Eu sei que esta profissão nos desgasta muito, mas deixar tudo para constituir família é demais, não?
Ela estacou atrás da porta entreaberta.
- Se não for agora, já serei velho demais para ver os meus filhos crescer, para ter forças para os educar e brincar com eles, ajudá-los com os trabalhos de casa, ensiná-los a conduzir… Tem mesmo que ser agora!!! Já tenho dinheiro, propriedades e investimentos que cheguem para viver confortavelmente até aos 120 e, além disso, posso sempre dar consultoria se me aborrecer…
- QUANDO te aborreceres…
- E gaja, já pensaste nisso?!? Olha que tens uma bem prendada em casa, que já conhece as tuas manias todas e, mesmo assim, tem paciência p’ra te aturar. E até está bem conservadinha…
- ‘Tás tolo?!? Respeito que ela é como se fosse minha irmã! Vê lá como falas, seu…
Ela já não ouvia mais nada.
Sabia agora finalmente o queria dizer a expressão “ficar azul”. Não fora a raiva pelo seu desdém e o tabuleiro teria caído no chão ao invés de ficar entalado nas suas garras brancas de mulher ferida!
Sentou-se no banquinho de apoio ao telefone, pousou o tabuleiro bem devagar e forçou-se a respirar.
Os seus pensamentos corriam. Lembrava-se bem do dia em que, com 12 anos, entrara naquela casa e começara as suas funções como ajudante da irmã dele. E, quando esta casara, do dia em que assumira as funções de governanta. Todas as festas dos sobrinhos, os Natais e férias partilhados, até o dia em que escolheram juntos o sofá do salão… todos esses dias felizes desfilavam na sua memória.
Ele dizia-lhe sempre que ela não teria que se preocupar com mais ninguém, porque ele estava ocupado demais para ter tempo para uma família mas, como ele lhe piscava sempre o olho a seguir, ela sempre pensou que… Mas não!!! “Ela é como se fosse minha irmã!”, ecoava a voz dele na sua mente, vezes sem conta.
Lá dentro, tocou um telemóvel, retirando-a dos seus pensamentos. Aproveitou para entrar e, como a chamada parecia importante, pousou a bandeja e saiu, apenas acenando para indicar a comida.

Durante dias andou à nora. Até os cozinhados não lhe saíam tão bem e, quando ele lhe perguntou o que se passava, disse que andava cansada. Ele deu-lhe uns dias de férias e ela foi para a casa da praia, onde, no Verão, costumavam passar os fins-de-semana e 15 dias com os sobrinhos dele.

Mal saía de casa.
Finalmente, no terceiro dia, foi às compras ao mercado; fartara-se daquelas porcarias congeladas e tinha vontade de fazer uns doces para afogar as suas mágoas.
Estava a escolher morangos quando um senhor com sotaque levemente francês lhe perguntou:
- Acha que são bons? Eu não percebo muito disto e tenho que levar 4 quilos...
- Vai ter muita gente para almoçar, é? – perguntou ela, enquanto separava os melhores.
- Não. Vou abrir um restaurante e hoje vou entrevistar cozinheiras. Como quero que uma das sobremesas tenha morangos, levo alguns para elas cozinharem.
- E vai ter assim tantas entrevistadas? E vai ser uma de cada vez ou todas ao mesmo tempo? Desculpe estar a perguntar, mas é que as últimas vão ter os piores morangos, por isso não vai ser justo.
- Não havia pensado nisso… - disse ele, cofiando o farto bigode.
- Se quiser, misturo-os todos e separo-os em saquinhos, um para cada cozinheira.
- Boa ideia. Isso seria fantástico.

Ela não sabia bem como é que aquilo acontecera…
Só se lembrava que, algures no intervalo de tempo que demorara a separar os morangos em saquinhos, tinha falado nalgumas receitas que conhecia e ele havia-a convidado para o ajudar a escolher.
Decidiu que não iria de mãos a abanar e, no meio da escolha de roupa própria para a elevada posição de júri de culinária, cozinhou uma “bavaroise de morango” e os seus célebres “morangos com café”.

Chegou ao restaurante mesmo à hora combinada e, equilibrando as duas sobremesas num só braço, bateu à porta.
- Seja bem-vinda ao meu humilde estabelecimento. – disse o anfitrião, enquanto lhe tirava os pratos das mãos e os pousava numa das mesas – Ainda faltam muitos pormenores, mas é por isso que quero escolher rápido uma cozinheira… Para ela me ajudar a decorar isto e o lugar ficar com um toque feminino.
Na sua cabeça, ela já estava a rearranjar as mesas, a imaginar as toalhas e a decoração, a pintar de vermelho escuro a parede do bar…
- Ah, mas é magnifique!!! Tão deliciosa a sua bavaroise. – ela estava tão distraída a deambular pelo restaurante que nem se apercebera que ele se tinha servido das suas sobremesas – E estes… Hmmm… Tão delicioso! – dizia ele com gotas do molho de café a brilharem no bigode.
Bateram à porta e, apesar dela se ter prontificado a atender, ele negou.
Enquanto acabava de se limpar com um guardanapo, entreabriu a porta e, com um grande sorriso, disse à bonita jovem que tentava espreitar lá para dentro:
- Já não preciso de cozinheira, já encontrei a ideal!!!

O Verão havia passado rápido de tanto trabalho que tinham tido. O restaurante era um sucesso e, mesmo agora a meio do Outono, ela não tinha mãos a medir.
Ele entrou na cozinha e, passando-lhe o bigode no pescoço (isso deixava-a sempre tão arrepiada que tremia toda), disse:
- Está lá fora um senhor que quer dar os parabéns à chef.
Compôs-se e, quando saiu, viu que era... ELE.
- Muitos parabéns!!! Parece que cozinhar para os meus sobrinhos todos te deu uma bagagem jeitosa. E o restaurante está lindo, de muito bom gosto. Vê-se que tem o teu dedo…
Toda a raiva, toda a tristeza, todo o desapontamento haviam desaparecido. Era feliz, tinha um objectivo, um companheiro e todos os elogios serviram para consolidar o que já sabia:
- Obrigada! Acho que encontrei o meu destino.

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Texto escrito para a Fábrica de Histórias
(http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt)

6 comentários:

  1. Bonita história, Susana -espero não estar enganado...como só uma vez o referiu. Já agora, se permite, porque não o assume?
    Voltando à sua história, gostei deveras. Como sempre, muito bem escrita e com um encantador trago de simplicidade
    Braço.
    Luís

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  2. Luís:

    Obrigada pela visita e pelos elogios!
    Quanto ao não uso do primeiro nome... É mesmo distraído ou é só do muito trabalho?!?
    Já muitas vezes o assinei, inclusivamente no seu cantinho, mas não o ponho aqui apenas porque só o descobre quem ler ou for lido. É uma espécie de prémio de intimidade!!!
    Além disso, fica sempre bem quando alguém perguntar quem eu sou, dizer: Veiga, S Da Veiga... ;D

    Ass: Sónia

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  3. Cara Doutora, fiquei um pouco baralhado. Afinal é Sónia ou Susana?

    Gostei desse começar de novo.
    Encerra uma grande lição e tem o mérito de nos mostrar que vale a pena não desistir.

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  4. Obrigada Manuel!!!

    E não tem nada que se confundir, que até tira teimas no Facebook, n'é?!?

    E obrigada pelos elogios. É o que dá ser uma inveterada optimista...

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  5. Foi mesmo o Facebook que me baralhou.

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  6. Sónia, se puder, divulge no seu blogue a situação aflitiva que está a viver o comércio de rua em Portugal.
    Deixo-lhe esta carta: http://questoesnacionais.blogspot.com/2010/04/por-amor-de-deus-ajudem-os-comerciantes.html
    Faça-a chegar onde puder, por favor. Pouco importa o mensageiro, é preciso é que chegue a todo o lado.
    Abraço e obrigada.
    Luís Fernandes

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