Hoje ela tinha decidido forçar-se a seguir o conselho do médico…
Dissera-lhe que a única maneira que o João tinha de recuperar era se ela lhe tocasse, se lhe falasse, fazendo-o saber que ela ali estava! Não podia ficar ali sentada imóvel naquela cadeira dura, no silêncio completo (tirava sempre o som às máquinas – aquele bip constante, qual metrónomo solitário, dava-lhe cabo dos nervos!), na penumbra (desligava sempre aquela imitação de luz do Sol que o tornava ainda mais pálido, cadavérico…), sem lhe tocar o corpo, a mente, a alma…
Mas ela não queria! Tocar naquelas mãos outrora fortes que tanta segurança lhe transmitiam e que agora lhe davam apenas a sensação de tocar um cadáver… era algo impossível! Sempre adorara tagarelar acerca de tudo e mais alguma coisa com aquele ouvinte ávido de grandes olhos brilhantes … mas ele agora dormia há meses, sem esperança de acordar!
Durante todo aquele tempo, o médico aconselhara-a, sem pressões, mas aproximava-se o fim dos pagamentos do seguro e, com ele, o temido dia de desligar as máquinas… de desligar o João …
Por tudo isto, ela tinha decidido que hoje o ia tocar…lhe ia falar… ia tentar acordá-lo daquele seu sono longo, ela que sempre gostara de o ver dormir durante tempos que, na altura, pareciam infinitos!
Decidiu deixar o som das máquinas ligado… Nunca gostara de se ouvir discursar e, além disso, queria alguma privacidade – como se os doentes das outras camas, também em coma, estivessem ali só para a ouvir!!!
Decidiu deixar a luz ligada… Ele sempre acordara mal ela abria as portadas, reclamando da luz intensa nos olhos, mesmo quando ela só abria uma frinchinha!!!
Chegou a cadeira dura para a cama, colocou a mão direita dele no meio das suas e, inspirando fundo para ganhar coragem, começou o discurso mais importante da vida deles:
“ João, desculpa não ter feito isto antes, mas nunca pensei que fosse necessário…
Já era suposto estares acordado a esta altura do campeonato…
Porque é que estás a demorar tanto a acordar?!?
Já 2 senhores que aqui entraram depois de ti acordaram e foram embora… e tu nada!!!
Sempre foste preguiçoso p’ra te levantar, mas isto é exagero!!!”
Desatou a chorar convulsivamente, mas forçou-se a continuar:
“Desculpa João, desculpa-me... Eu não queria falar assim, só que… eu não consigo… tu tens que…”
Ela soluçava tanto que nem conseguia respirar. Agarrava a mão dele com tanta força que os seus dedos ficaram mais brancos que os dele...
Finalmente libertou toda a tristeza, raiva, angústia, incompreensão e amargura acumuladas durante todos aqueles meses de solidão e, afogando a cabeça nos lençóis, chorou…
Chorou tanto que a cabeça lhe doía, os olhos queimavam e o nariz já não servia para respirar, mas apenas para destilar todos os sentimentos numa torrente sem fim.
Ao fim de muito tempo, tanto que parecia que tinha chovido na cama de tão molhada esta estava, ela parou de soluçar. Foi como se alguém lhe tivesse fechado finalmente a torneira, tivesse esvaziado o tanque e nada mais houvesse para sair.
Ela limpou a cara o melhor que pôde e voltou a tentar:
“Oh João…
Desculpa…
Eu não queria fazer isto… mas sinto tantas saudades tuas!!!
A casa é horrível sem ti!
Sem o barulho dos teus passos no soalho… sem o teu calor na cama… sem a tua roupa no chão para arrumar… sem os teus sapatos fora do sítio p’ra me chatear…
Não poder conversar contigo acerca de… tudo… faz-me falta!
Fazes-me muita falta!!!
Eu não conseguia tocar-te porque não queira esquecer a sensação da força das tuas mãos nas minhas… não queria substituir essa sensação pela fraqueza e moleza de agora…
Não conseguia falar-te porque sei que não estás a ouvir… sabia… já não sei… e já não interessa!
Amo-te e, mesmo que não o ouças, quero que o sintas, que me sintas!!!
Sabes, está a chegar a altura de tomar a decisão. Tu sabes… das máquinas... de desligar…
O seguro ‘tá quase a acabar e… e eu não tenho conseguido escrever nada de jeito…
Por isso é que eu tive que fazer isto… E ainda bem!!!
Mas preciso mesmo que percebas que não tenho muita escolha, por isso tens mesmo que acordar!!!”
Desviando-lhe o cabelo, acariciou-lhe a face.
“Tenho que chamar o barbeiro. Já ‘tás com o cabelo enorme outra vez!
E as unhas…”, disse ela enquanto observava a mão dele atentamente, “Tenho que pedir que tas cortem …
Não! Espera aí. Venho já!!!”
Sorriu pela primeira vez em meses…
“Como se fosses a algum lado…”
Voltou da sala das enfermeiras munida dum corta-unhas, um pente e uma tesoura.
Decidira que ia agir como se ele estivesse mesmo acordado, mas incapaz de se mexer, como naquele vídeo dos Metallica que vira anos antes e agora não lhe saía da cabeça…
Assim, enquanto lhe cortava as unhas das mãos, falou-lhe de toda a gente que a tentava ajudar mas que ela ia enxotando.
Enquanto lhe cortava as unhas dos pés, contou-lhe acerca do crescimento dos sobrinhos, das birras da filha da vizinha de cima e das poucas coisas em que tinha reparado na sua ausência.
Enquanto lhe cortava o cabelo, contou-lhe dos planos que tinha para quando ele acordasse e da recém-tomada decisão de fazer o que fosse necessário para ganhar dinheiro para manter as máquinas ligadas.
Horas depois, o cansaço apoderou-se dela e decidiu deitar-se a seu lado, enroscada nele, segura debaixo do seu braço (que afastara com cuidado por causa dos sensores e do soro), como fazia sempre que precisava de miminhos…
“Espero que me perdoes… que não me castigues ignorando-me tanto tempo como o que eu te deixei aqui perdido na cama…
Volta depressa… Tenho saudades tuas!
Quero envelhecer contigo ao meu lado na nossa cama, não nesta!
Por favor, acorda!!!”
A montanha-russa de emoções esgotara-a e, finalmente, adormeceu aninhada nele.
Acordou com o reboliço das enfermeiras, uma a tirá-la da cama sem cerimónia, outra a mexer nas máquinas e o médico a observar o João… o seu João cujos grandes olhos brilhantes piscavam muito e a olhavam bem fundo, como que dizendo “Fecha a portada, querida. Está muita luz!”.
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias
(http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt)
Sublime, SdaVeiga. Está fantástica. Com franqueza!
ResponderEliminar(Porra para isto, ainda não é desta que ganho!)-Brincadeira!!! Nem sei o que é que ganhamos com este desafio. Só sei que me está a divertir imenso.
Abraço.
E eis que me deixa a nadar em baba!!!
ResponderEliminarCreio já ser capaz de distinguir, de entre os elogios que dá, os mesmo-bons dos assim-assim e este é dos mesmo-bons!!!
Muito lhe agradeço, especialmente porque a sua escrita é fantástica!!!
O que se ganha?
- a possibilidade de ser editado em papel - já saíram 4, tem lá os links onde diz "Histórias em papel"
- os elogios - que, p'ra mim, são o melhor...
- e a diversão, obviamente!!!!! ;)
Lindo, lindo, lindo...
ResponderEliminarDesculpe escrever aqui de forma tão evasiva, mas de facto estou colada a cadeira.
Não há palavras para dizer o quanto escreve bem, ao ler o seu texto sinto-me verdadeiramente pequenina, e ansiosa por um dia conseguir escrever algo tão belo como o que li aqui.
Caro Luis, o que ganhamos aqui é o puro prazer de nos lermos uns aos outros e podermos apreciar a heterogeneidade de textos que na fábrica aparecem.
Um braço..
Ana:
ResponderEliminarMUITO OBRIGADA pelos elogios!!!
Não me considero grande escritora, especialmente não ao nível de alguns dos autores que escrevem na Fábrica de Histórias...
Mas, com estes elogios todos, começo a acreditar!!!