Ela é que tinha razão…
Não passo dum vulto igual a tantos outros no meio da multidão, dum ser sem identidade, que não sabe quem é, quem será… nem sequer quem foi!
Ela é que tinha razão…
Lembro-me da sua voz esganiçada a dizer que eu nunca seria mais que um vulto no meio da multidão, igual a tantos outros que se perdem no dia-a-dia, enquanto não decidisse lutar pelo que queria realmente na vida.
Lembro-me da sua voz esganiçada a dizer que eu devia seguir o meu coração e não o desejo dos meus pais, que devia ser eu próprio e não o” Sr. Dr. Júnior” que eles sempre sonharam…
Ela é que tinha razão…
Lembro-me do seu olhar de desilusão quando lhe disse que ía seguir os passos do meu pai, que os meus sonhos não passavam disso mesmo, de sonhos vãos e que os meus pais me tinham feito ver a razão e o futuro certo para mim era o que eles sempre sonharam.
Lembro-me do seu encolher d’ombros de desistência, de quem tentou fazer tudo para salvar um moribundo e o viu perder a vida, impotente para parar a morte…
Ela é que tinha razão…
Quando me ofereceram o livro, pensei em colocá-lo no monte dos “por abrir, para trocar/oferecer”. Alguma vez ía ter tempo para ler poesia duma gaja qualquer desconhecida… e vi o nome dela!
Abri o livro e, logo no índice, um poema com a expressão que ela usou no dia em que lhe comuniquei a minha decisão: “Se é isso que queres…”
Abri o livro e vi a data daquela altura em que os meus pais me fizeram perceber que ela não era o género de mulher condigno para alguém do nosso estatuto…
Ela é que tinha razão…
As palavras daquele poema auguravam tudo o que sou agora:
um vulto igual a tantos outros no meio da multidão,
um ser sem identidade, que não sabe quem é nem quem será… nem sequer quem fui!
Olho-me no espelho e não vejo mais que um vulto sem identidade própria…
sem o sorriso a fazer covinhas nas bochechas, como ela tanto gostava
sem os olhos sonhadores do futuro desejado, o futuro que eu tanto queria
sem o fogo na cabeça ruiva, vazia de emoção
perdido no futuro predestinado…
Ela é que tinha razão…
Até o meu cabelo perdeu a cor e não sou mais que um dos muitos que todos os dias passa pelos corredores a despachar o que pode, na ânsia de sair daquele edifício e… continuar a não viver!
Ela é que tinha razão…
Os poemas finais são tão profundos, tão alegres, tão cheios de vida, que desejo sentir algo com um milésimo da sua intensidade, dessa paixão de viver…
Ela é que tinha razão…
Ouço a sua voz esganiçada dizer que eu nunca serei mais que um vulto no meio da multidão, igual a tantos outros que se perdem no dia-a-dia, enquanto não decidir lutar pelo que quero realmente na vida.
Ouço a sua voz esganiçada dizer que devo seguir o meu coração e não o desejo dos meus pais, que devo ser eu próprio e não o” Sr. Dr. Júnior” que eles sempre sonharam…
Ouço a sua voz esganiçada dizer que tenho que despir este fato, esta vida vã, esta pele vazia de emoção e correr para os meus sonhos… se ainda os conseguir apanhar!
Ela é que tem razão…
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Texto escrito para a Fábrica de Histórias
(http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt)

Gostei S(Sara?)DA VEIGA. Muito interessante a sua história, descrita numa frase repetida, "Ela é que tinha razão", mas que funciona como a rima no poema.
ResponderEliminarParabéns...cabecinha imaginativa.
Abraço.