quinta-feira, 4 de março de 2010

"Palavras para uma imagem"

Ela é que tinha razão…

Não passo dum vulto igual a tantos outros no meio da multidão, dum ser sem identidade, que não sabe quem é, quem será… nem sequer quem foi!

Ela é que tinha razão…

Lembro-me da sua voz esganiçada a dizer que eu nunca seria mais que um vulto no meio da multidão, igual a tantos outros que se perdem no dia-a-dia, enquanto não decidisse lutar pelo que queria realmente na vida.
Lembro-me da sua voz esganiçada a dizer que eu devia seguir o meu coração e não o desejo dos meus pais, que devia ser eu próprio e não o” Sr. Dr. Júnior” que eles sempre sonharam…

Ela é que tinha razão…

Lembro-me do seu olhar de desilusão quando lhe disse que ía seguir os passos do meu pai, que os meus sonhos não passavam disso mesmo, de sonhos vãos e que os meus pais me tinham feito ver a razão e o futuro certo para mim era o que eles sempre sonharam.
Lembro-me do seu encolher d’ombros de desistência, de quem tentou fazer tudo para salvar um moribundo e o viu perder a vida, impotente para parar a morte…

Ela é que tinha razão…

Quando me ofereceram o livro, pensei em colocá-lo no monte dos “por abrir, para trocar/oferecer”. Alguma vez ía ter tempo para ler poesia duma gaja qualquer desconhecida… e vi o nome dela!
Abri o livro e, logo no índice, um poema com a expressão que ela usou no dia em que lhe comuniquei a minha decisão: “Se é isso que queres…”
Abri o livro e vi a data daquela altura em que os meus pais me fizeram perceber que ela não era o género de mulher condigno para alguém do nosso estatuto…

Ela é que tinha razão…

As palavras daquele poema auguravam tudo o que sou agora:
um vulto igual a tantos outros no meio da multidão,
um ser sem identidade, que não sabe quem é nem quem será…
nem sequer quem fui!

Olho-me no espelho e não vejo mais que um vulto sem identidade própria…
sem o sorriso a fazer covinhas nas bochechas, como ela tanto gostava
sem os olhos sonhadores do futuro desejado, o futuro que eu tanto queria
sem o fogo na cabeça ruiva, vazia de emoção
perdido no futuro predestinado…


Ela é que tinha razão…

Até o meu cabelo perdeu a cor e não sou mais que um dos muitos que todos os dias passa pelos corredores a despachar o que pode, na ânsia de sair daquele edifício e… continuar a não viver!

Ela é que tinha razão…

Os poemas finais são tão profundos, tão alegres, tão cheios de vida, que desejo sentir algo com um milésimo da sua intensidade, dessa paixão de viver…

Ela é que tinha razão…

Ouço a sua voz esganiçada dizer que eu nunca serei mais que um vulto no meio da multidão, igual a tantos outros que se perdem no dia-a-dia, enquanto não decidir lutar pelo que quero realmente na vida.
Ouço a sua voz esganiçada dizer que devo seguir o meu coração e não o desejo dos meus pais, que devo ser eu próprio e não o” Sr. Dr. Júnior” que eles sempre sonharam…
Ouço a sua voz esganiçada dizer que tenho que despir este fato, esta vida vã, esta pele vazia de emoção e correr para os meus sonhos… se ainda os conseguir apanhar!

Ela é que tem razão…




_____________//_______________

Texto escrito para a Fábrica de Histórias
(http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt)

1 comentário:

  1. Gostei S(Sara?)DA VEIGA. Muito interessante a sua história, descrita numa frase repetida, "Ela é que tinha razão", mas que funciona como a rima no poema.
    Parabéns...cabecinha imaginativa.
    Abraço.

    ResponderEliminar

Diga lá o que pensa...