Sentada no fundo da sala, no cantinho mais escuro, ouvi as suas palavras ecoar por entre uma audiência de mulheres ansiosas:
- Para ser feliz, uma mulher só precisa de 3 coisas: amor-próprio, sonhos e orgasmos.
Ouviram-se risinhos por toda a sala, como acontecia no liceu quando a professora de Biologia falava do aparelho reprodutor…
Mas ela manteve-se séria e reforçou a ideia:
- Não estou a brincar! É pura e simplesmente verdade. Para ser feliz, uma mulher só precisa de 3 coisas: amor-próprio, sonhos e orgasmos. E não necessariamente por esta ordem.
Ela disse aquilo com tanta certeza, com aquela segurança de quem sabe o que diz, que quase me fez acreditar…
E continuou a falar…
Falou acerca da insatisfação crónica associada à existência de dois cromossomas X, que faz com que nunca estejamos satisfeitas com o que temos e como somos, que nos faz querer sempre mais e mais…
Falou acerca da incapacidade de procurarmos o prazer sem complexos ou sentimentos de culpa, seja na cama, seja na roupa que usamos, seja no que comemos…
Falou acerca da incapacidade que temos em perceber o nosso próprio valor, em valorizarmos o que dizemos e o que conseguimos, como fazemos com o resto do mundo…
Falou de muito mais coisas que fizeram com que a sua introdução fizesse todo o sentido e quase me conseguiu convencer que eu poderia ser feliz! Quase…
No fim, perguntou quem é que ainda tinha dúvidas acerca da “Receita da Felicidade Feminina” e, apesar de não ser nada o meu estilo, ergui o braço.
Éramos poucas as "não-convertidas" à facilidade do processo, mas fiquei satisfeita por ver que não era a única…
Ela mandou as “convertidas” almoçar e prepararem-se para os exercícios da tarde e pediu-nos que ficássemos mais um pouco.
Olhávamos umas para as outras com alguma apreensão enquanto esperávamos que, lentamente, a sala esvaziasse…
Finalmente, ela considerou que tínhamos privacidade suficiente e, sacando dum caderninho de capa dura vermelha, começou a perguntar enquanto escrevia sem olhar para as folhas, mantendo sempre contacto visual com cada uma:
- Como te chamas?
- O que não te agrada no teu corpo?
- O que não te agrada na tua vida?
- Qual pensas ser a razão de ainda não seres feliz?
Deixei-me ficar para último porque, ao contrário das outras, eu não tinha a resposta na ponta da língua… Ao contrário das outras, eu não estava ansiosa por partilhar os meus sentimentos mais íntimos com aquela completa estranha, por muita confiança que ela emanasse… Ao contrário das outras, eu não queria nem pensar no que me tinha levado até ali…
Quando chegou a minha vez, fiquei vermelha como um pimento ao cruzar o seu olhar, mas… O seu olhar carinhoso e interessado, a sua voz suave e reconfortante, a sua postura segura mas convidativa, tudo isto venceu as minhas barreiras e limpou as minhas dúvidas, dando-me resposta pronta às questões, libertando-me de todas as inibições e fazendo-me perceber coisas que nunca me tinham sequer passado pela cabeça.
Falei de tudo: do excesso de peso… da falta de confiança nas minhas escolhas de vida… da inexistência de quem me desse a mão em público, quanto mais orgasmos… de tudo!!!
No fim, senti como se me tivessem tirado um peso enorme de cima dos ombros, como se tivesse emagrecido 20 quilos e fiquei feliz por ter conseguido responder a tudo de uma maneira tão franca. Mas..., já não estava corada! Os óculos nem tinham chegado a embaciar, a voz não chegou a falhar, o suor não começou a escorrer pelas costas e “regueifas” abaixo… não aconteceu nada do que acontecia sempre que eu falava com alguém, especialmente de algo pessoal!!!
Enchi-me de coragem e perguntei-lhe:
- Acabou de me hipnotizar, não foi? – cá estava o rubor, o calor, o suor…
- Sim. – respondeu ela piscando os olhos, algo surpresa pela pergunta – Como é que sabe?
Evitando o seu olhar, respondi num sussurro:
- Em circunstâncias normais, eu nunca falaria assim tão aberta nem calmamente com alguém acerca de algo tão íntimo…
Como já faltava pouco tempo até ao início dos trabalhos, convidou-me para ir almoçar com ela. Passou a hora de almoço toda a contar como era parecida comigo em nova – com baixa auto-estima, com pouca auto-confiança, sem se abrir com ninguém - e que tinha assistido a uma palestra como esta, que lhe tinha mudado a vida.
Descobriu que era tudo uma questão mental e que, com a ajuda da hipnose, conseguia fazer as pessoas abrirem-se o suficiente para as poder ajudar, mesmo quando elas não sabiam o quanto precisavam de ajuda.
Abriu-se comigo e fez-me sentir tão importante por o estar a fazer que todo o rubor, calor e suor desapareceram e ficou apenas um à-vontade enorme – que não era hipnose porque, não só ela me garantiu que não o faria mais, como eu desviava o olhar regularmente para garantir que ela não o fazia outra vez, só por precaução.
À tarde recrutou-me para a ajudar e, ainda nem sei bem como, acabei a ajudá-la em nas suas palestras, fossem onde fossem. Tornei-me sua assistente pessoal, o seu braço-direito, até chegar ao ponto de a ajudar a fazer os exercícios e até de hipnotizar uma ou duas pessoas por sessão.
Com tudo o que aprendi com ela, cresci e ganhei confiança em mim mesma e amor-próprio suficiente para me abrir ao mundo e conhecer um homem fantástico com quem constituí família e que me apoia a 100% nisto de ajudar outras mulheres como ela me ajudou a mim.
Um homem baixinho aproxima-se das duas e interpela a mulher de tailleur, dizendo:
- Desculpem interromper... Só queria informá-la que a sala já está praticamente cheia e está tudo operacional. Quando quiser começar…
- Obrigada. Vou já.
Ela vira-se para a rapariga de jeans e, com um encolher de ombros, sugere:
- Continuamos a nossa conversa à hora de almoço, se me quiseres fazer companhia.
- Claro que sim! Seria uma honra!
A rapariga senta-se num lugar vago na primeira fila. Observa a mulher de tailleur subir ao palco e, emanando uma segurança fantástica, ouve-a dizer:
- Para ser feliz, uma mulher só precisa de 3 coisas: amor-próprio, sonhos e orgasmos.
_____________//_______________
Texto escrito para a Fábrica de Histórias
(http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt)
Bonita história, SdaVeiga. Bem escrita e melhor contada no deslizar da prosa. Aliás, como é costume. Parece o argumento de um filme...
ResponderEliminarAbraço.
Luís
Só uma explicação para a duplicação de comentários: no primeiro, apareceu-me "erro". Daí enviar o segundo. Mas não importa nada. Só dignifica que é o destino a contribuir em dobro.
ResponderEliminarAbraço.
Luís
Luís:
ResponderEliminarOs seus comentários são sempre bam-vindos!
Quando são elogios e, ainda por cima, a duplicar, mais bem-vindos são ainda!!!
Obrigada, do fundinho do meu coração, por gastar do seu tempo precioso a ler o que escrevo e, p'ra cúmulo, gostar!!! ;)