Era de noite, num
descampado…
Bem, não era
um completo descampado, porque havia uma árvore no meio das ervas altas…
Mas era de noite e não
havia mais nada que não fosse aquela árvore e nós em quilómetros em redor!
Pronto, não eram
quilómetros, mas o muro da herdade estava bem longe, tão longe que nem se
conseguia ver a porta de madeira por onde o Pedro fazia sair as ovelhas todas
as manhãs para irem pastar no preciso mesmo local onde estava a árvore. Sim, porque
tu bem sabes como o Sol é forte por estas bandas no Verão e, sendo aquela a
única árvore nas redondezas, era lá que ele e o Chaparro, o pachorrento Rafeiro Alentejano que sempre o acompanhava
no pastoreio, se refugiavam.
Mas voltando à história…
Era de noite, num
descampado com uma árvore solitária, a muitos metros dos limites da herdade
mais próxima, sob a maior Lua que alguma vez vi na vida… até essa altura era, pelo menos!
Desde aí já vi a Lua bem
maior, mas juro-te que, naquele dia… – melhor dizendo, naquela noite, ela
estava o maior que eu alguma vez a vira na minha jovem vida!
E tão brilhante que ela
estava! Estava uma Lua cheia bem redondinha…
Bem, talvez não “bem
redondinha”, porque me lembro de pensar que já estava a começar a desaparecer
um bocadinho, que já não era um círculo tão perfeito como a moeda de prata que
o meu padrinho me tinha dado na Páscoa e que eu guardara no frasco dos meus
tesouros – juntamente com o meu pião e a fisga que ganhara ao Rapa ao filho da
lavadeira que vinha tratar da roupa toda da herdade duas vezes por semana.
Mas não deixava de ser
a Lua Cheia maior e mais brilhante que eu alguma vez vira na vida!
Estava uma típica noite
abafada e sem vento de Verão e ouviam-se os grilos e as cigarras, as melgas
zanzavam à minha volta enquanto eu caminhava para a árvore, e as ervas restolhavam secas debaixo dos meus pés, mas não se ouvia qualquer outro som.
Combinara com o Emílio
que o duelo seria à meia-noite, mas adormecera e já o relógio da sala marcava
duas e vinte da manhã quando eu saí de casa pela porta da cozinha. Por isso, quando finalmente
cheguei à árvore, não estranhei vê-lo a dormir encostado ao tronco.
Ainda pensei em não o
acordar, só para não o incomodar – não teve nada a haver com o facto de ele ser
mais alto e entroncado que eu, não pensem! Só me parecia mesmo mau estar a
incomodá-lo!
Só que, quando dei um
passo para me vir embora, quebrei um galho seco que estava no chão e ele
despertou.
Dum salto pôs-se em pé e,
honestamente, eu temi o pior.
Mas ele não me atacou
logo e, em vez disso, só disse com uma voz muito séria:
- O duelo está cancelado,
ela começou a namorar com o Quim das Cortiças.
Só te digo: o meu
coração parou de bater durante tanto tempo que eu devia ter morrido!
Pronto, está bem… Não
parou mesmo, mas foi como se tivesse parado de tão grande que foi o choque
daquela notícia: a minha amada Maria namorava com outro! E eu nem sequer
chegara a ter que lutar por ela! Perdera-a sem sequer tentar!
O Emílio, que me quisera partir
todo quando soube que eu achava “a sua Maria” bonita e exigira
aquele duelo nocturno para se decidir quem havia de namorar com ela, não parecia
muito chateado. Muito pelo contrário, comportava-se como se aquilo fosse a
coisa mais corriqueira do mundo.
Então tive uma ideia que,
na altura, me pareceu brilhante e, por isso, perguntei-lhe, cheio de uma confiança
que não sentia:
- Ó Emílio, pá, estás a
tentar enganar-me! Queres-te é safar de ter que lutar comigo e ficar com a
Maria para ti sem esforço.
No instante seguinte
estava caído no chão com um líquido quente a escorrer-me do nariz.
- Se eu quisesse
ganhava-te “sem esforço” pá, nunca te esqueças disso. O que eu estou a dizer é
verdade. Eu não minto, pá!
Ele nunca fora de muitas
palavras mas, acima de tudo, nunca fora de mentir – eu devia ter pensado nisso antes
de abrir a minha grande bocarra!
- Mas então porque é que
não estás chateado? Se a mim me querias bater, porque é que não vais dar um
enxerto de porrada ao Quim? – perguntei eu enquanto limpava o sangue ao lenço
que, avisadamente, trouxera no bolso.
- Se ela quer ficar com
ele, que fique, eu até nem o gramo! Se ele fosse meu amigo, teríamos que deixar
tudo em pratos limpos, mas ele não presta, por isso estou-me borrifando. O
problema é só dela!
Nessa altura fiquei a
saber o que é a honra entre amigos, o que quisera dizer o meu tio quando comunicara o seu divórcio à família toda num almoço de Domingo: “Os amigos são as únicas pessoas com quem se pode contar na vida.
As gajas trocam-nos quando ficamos pobres, mas os amigos não!”
Percebi que o Emílio
quisera lutar comigo para que nenhum de nós ficasse magoado por a ter perdido
para o outro e essa dor afectasse a nossa amizade. A dor seria só física e
passaria, mas a nossa amizade continuaria e superaria aquele obstáculo.
Mas a Maria trocara-nos
as voltas!
O Quim era mais velho,
alto, forte e até tinha um emprego, por isso todas as moças o cobiçavam, mas
nunca pensara que a Maria tivesse interesse em namorar com aquele…
- É um bronco que nem
sequer acabou a terceira classe, mas se ela o prefere, que faça bom proveito.
As palavras que o Emílio proferira acabaram por me fazer perceber que não valia a pena
estar a pensar mais naquilo.
De repente ouviu-se um
tiro.
Não sabíamos donde viera,
mas não queríamos descobrir. Desatámos a correr pelo descampado fora na
direcção oposta à origem daquele som aterrador e espantámos as codornizes que
dormiam entre as ervas, fazendo-as voar por todo o lado.
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| Imagem retirada do FB |
- Vai para casa e
encontramo-nos amanhã na escola. – gritou ele enquanto guinava em direcção ao
povoado.
Continuei a correr, mas
desta vez para a herdade.
Quando lá cheguei, o meu
pai estava debruçado da janela do seu quarto a falar com o Sr. Penteado, o capataz. Como era no lado da casa oposto à cozinha, pude entrar sem ninguém me ver.
Enfiei-me na cama e cobri-me com os lençóis. Quando percebi que não
fora apanhado, adormeci.
No dia a seguir, a
caminho da escola, descobri o que acontecera: o Quim fôra apanhado no meio da
seara de trigo com a Maria. O pai dela apanhara-os e, sob ameaça da espingarda,
havia-lhe deixado bem claro que a sua filha não era para brincadeiras. Maria interpusera-se
e argumentara com o pai que Quim prometera casar com ela, mas quando se virou,
viu que ele desatara a fugir, deixando-a entregue à ira do pai, pelo que a
própria Maria sacara da arma e lhe acertara uma chumbada no traseiro.
Quando dei de caras com o
Emílio, percebi que ele já ouvira a mesma história e, juntos, rimos a bom rir. Haviamo-nos
livrado de boa!
- Papá, com quem é que a
Maria acabou por casar?
- Com o Quim!
- A sério? Mas ele
abandonou-a…
- E ela nunca mais o
deixará esquecer disso na vida! Tu sabes como ela é.
- Sei?
- Sim, a Maria é a Dona
Maria da “Mercearia do Corrido”, que era
do pai dela, e o marido é o Sr. Joaquim, que faz tudo sozinho enquanto ela
se senta a ver televisão ou fica à porta a falar com as comadres.
- EhEh, safaste-te mesmo
de boa papá!
- Pois foi meu filho,
pois foi!
- E o Emílio, quem é?
- Então, é o teu tio Zé! Quando
a tua tia Ana começou a namorar com ele, preferiu tratá-lo pelo segundo nome e
ele é Zé desde aí.
- Espero vir a ter
histórias fixes assim para contar aos meus filhos!